Entre os lançamentos nacionais 'Casa de Areia' e 'Operação Babá', entrando hoje nas salas do país, o exibidor, orientado unicamente pela cartilha do 'livre' mercado, vai optar sempre pelo segundo para fechar a programação de suas salas numa cidade como Londrina. É aquele que fala inglês e, sem dúvida, o que dará maior retorno de bilheteria. Mesmo que haja uma expectativa, um alvoroço em torno deste ou daquele título, isto não importa. Quase nunca vemos por aqui os filmes que queremos. Vemos sim aqueles selecionados pelas grandes multinacionais da distribuição, que atropelam nossas predileções e impõem de maneira unilateral (alguém disse mafiosa?) os produtos que a eles só interessam comercialmente.
Assim, enquanto são aguardadas para breve estimulantes novidades cinéfilas nos domínios do Shopping Com-Tour, temos mais um fim de semana ao redor de inevitável mesmice. Comédia 'familiar' da chancelaria Disney, 'Operação Babá' está chegando ao circuito brasileiro (veja a programação de cinema na página 2) com dupla intenção: fazer dinheiro e fazer rir. A primeira não parece missão muito difícil, dada a baixa expectativa de qualidade com a qual o grande público acorre às filas. Quanto ao riso, há sempre quem se divirta com situações bizarras, implausíveis e escatológicas temperadas até pela violência, como é o caso presente.
O marine peso-pesado Shane Wolfe (Vin Diesel), soldado de elite especialmente eficaz e disciplinado, deve assegurar a proteção a uma pequena família durante a ausência da mãe. O pai, cientista, foi assassinado, mas antes de morrer escondeu em algum lugar da casa, por precaução, um componente eletrônico que agora é alvo da cobiça de terroristas. Como manda o surrado figurino industrial de roteiros pret-à-porter, versão Sid Field, todos se estranham no começo.
Mas o maciço e anabolizado segurança Diesel vai aos poucos quebrando a resistência da turma e se envolve afetivamente com esta família tipicamente Disney: o adolescente deslocado e retraído, a garota ''inteleca'' e a cada minuto com uma novidade, o garoto angustiado e taciturno que tem insights eventuais por conta de seu amor pela ''Noviça Rebelde''. E os bebês, que vomitam e fazem xixi e cocô por todo canto. Ah, e em vez do cachorro ainda há o pato da casa. Enquanto isso, perigosos ninjas sérvios (?) fecham o cerco.
A anedota central de ''Operação Babá'' (no original ''The Pacifier'', que tanto pode significar pacificador como chupeta) é o clássico mecanismo ''brutamontes tomando conta de crianças'' de ''Um Tira no Jardim de Infância'' e de ''Querem Acabar Comigo'', com lançamento brasileiro previsto para 10 de junho. O humor, tratando-se desta espécie de ''conflito de gerações'', é sempre previsível e só é surpreendente quando a comédia pastelão se torna violenta, como a demonstrar às crianças que a violência é realmente a única solução para resolver os problemas. O que de resto deixa o filme com ar de falsa inocência e brandura.
Se vez ou outra há sequências de ação até aceitáveis para aquilo que o filme minimamente se propõe, como de hábito faz muita falta o recheio dos personagens. Diesel, embora um Schwarzenegger cerebralmente melhor dotado, não chega a impressionar além dos bíceps, e talvez por isso domine a cena, dividindo as atenções com o...pato. Os atores infantis são todos genéricos, em escala seriada.
Menos mal é o terror que vem (mais uma vez) da Ásia. De modo geral, recentemente o gênero tem estado aqui melhor representado do que em Hollywood, que anda inclusive importando, além de idéias, também pessoal especializado. A outra estréia nacional de hoje, ''Visões'' (confira a programação de cinema na página 2) tem como curiosidade a procedência tailandesa, em co-produção com a Coréia do Sul. Mas quem bancou nos bastidores foi a empresa de Tom Cruise, a Cruise/Wagner Productions, que comprou os direitos dos populares irmãos Pang, diretores do primeiro filme.
É e não é uma continuação, apesar de o título em inglês - ''The Eye 2'' - insinuar uma sequela. A cega do filme original, que recebia um transplante e passava a ver ''dead people'', é agora uma garota que decide se matar depois de romper com o namorado. Vai para um hotel, toma uma overdose de comprimidos, mas é salva pelo acaso. Decide então retomar a vida normal, porém logo começa também a ver gente morta andando nas ruas. E descobre que está grávida.
Migrando de um para outro filme estão garotas jovens e bonitas que vêem fantasmas depois de passarem por experiências traumáticas. Permanece aqui o mesmo ritmo e a a mesma dinâmica que os irmãos Oxide Pang Fat e Danny Pang Shun imprimem aos seus filmes, dando a eles um suspense contínuo como conteúdo para uma estética visual assustadora, que envolve em crescendo. Em alguns momentos há ecos de ''O Bebê de Rosemary'', e em que pese o evidente desnível, se confrontada diretamente a obra-prima do polonês, este drama de horror oriental consegue ser quase sempre absorvente e perturbador. Definitivamente não recomendável a grávidas.

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