Esse é um daqueles períodos intermediários do ano, um daqueles bolsões que o exibidor precisa preencher compulsoriamente enquanto não chegam os produtos mais ambiciosos o que também não é nenhuma garantia de qualidade desta fase final da complicada temporada 2005. É hora de engolir compulsoriamente aquelas gorduras que incham os pacotes que Hollywood impõe mundo afora e se muito do que já se viu até agora neste ano foi material desinteressante, quando não inútil, esta ponta de estoque pré-Natal então nem se fala, costuma ser de amargar. Por conta deste lote chegam hoje simultaneamente ao circuito nacional dois filmes, duas comédias que a partir dos respectivos títulos apelativos sugerem o mesmo destino: a abstenção sumária. Mas o argumento com um quarentão ainda sexualmente invicto em pleno século 21 acaba sendo uma, ou melhor, a opção, e até que bem assistível.
''O Virgem de 40 Anos'', em cartaz no país a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2). O título já diz tudo. Nesta comédia franca e direta vamos encontrar Andy Stitzer (Svete Carell), homem de meia-idade para quem as alegrias do sexo permanecem um livro fechado. Um bom sujeito, Andy mora sozinho num agradável apartamento com sua coleção de brinquedos e HQs. Seus interesses permanecem firmemente adolescentes: videogames, o show televisivo ''Survivor'' e engenhocas eletrônicas. Aliás, bem a calhar, já que ele trabalha como técnico de loja especializada, para onde vai de bicicleta todos os dias. Obviamente o que falta na vida de Andy é o amor de uma mulher ou de várias, idéia posta em permanente quarentena depois de embaraçosas incursões ao mundo do sexo quando ainda mais jovem. Em outra palavras: ele nunca, mas nunca transou com quem quer que seja, nem por acidente.
As coisas são mais complicadas quando se sabe que seu ambiente de trabalho é um laboratório de luxúria. Seus três terríveis melhores amigos descobrem que ele jamais teve qualquer contato íntimo mediato ou imediato de qualquer grau. E o trio vai fazer o possível e o impossível para viabilizar a estréia de Andy nos domínios carnais. Encontros, clubes, tudo é tentado mas não é engrenado: ao primeiro sinal de intimidade física, o quarentão está de volta para o seu Quarteto Fantástico.
Baseado num humor rude e luxurioso, mas nunca grosseiro, ''O Virgem de 40 Anos'' é basicamente uma dessas comédias de amigos, as buddy comedies. Como boa surpresa, há uma veia sentimental amenizante ao longo do filme que faz com que o espectador ria da situação de Andy sem deixar de perceber que o personagem é de fato uma boa pessoa e que não se importa por nunca ter ido para a cama com alguém. Embora não haja uma profusão de cenas extremamente hilariantes, o filme dirigido pelo estreante Judd Apatow oferece comicidade suficiente para manter o público sorrindo de uma situação que vai se tornando mais e mais embaraçosa.
O elenco de apoio, dando vida a personagens bem-intencionados que invariavelmente conduzem a algum tipo de desastre hilário, é ponto alto deste filme que revela para o cinema o ator Steve Carell de quem nasceu a idéia do virgem quarentão , até pelos sobrenomes parecidos alguém muito próximo da escola do comediante Will Ferrell.
E a crise econômica que este ano flagela Hollywood e filiais (Brasil inclusive) quase com a força de um furacão tropical com intensidade acima do nível 3? Há algumas semanas li entrevista com o marqueteiro-estrela Paul Dergarabedian na qual, em tom de profundo conhecedor da matéria, enumerava os culpados pela situação da indústria hollywoodiana, que atravessa seu pior período desde 1990, com queda de público de 12 por cento em relação a 2004. Segundo Dergarabedian, os vilões são a pirataria, o alto preço da gasolina, a tevê a cabo, o crescente acesso ao DVD e ainda, fechando a lista, os videogames. Dizia ele que com tantas fontes de entretenimento, menos gentes estaria indo ao cinema este ano.
Mas depois que assisti a ''Gatões - Uma Nova Balada'', o outro lançamento nacional a partir de hoje, me lembrei da tal entrevista e fiquei imaginando quem seria aquele sujeito, e até que ponto estaria descerebrado para não enxergar que o grande culpado da crise de publico é antes de qualquer coisa a mínima qualidade dos filmes. Na verdade, ele e outros MBA asponados da indústria sabem disso, mas admiti-lo publicamente seria assinar a carta de demissão.
Sem dúvida candidato fortíssimo a pior filme do ano, ''The Dukes of Hazzard'' não é apenas ruim, mas agressivamente ruim, um insulto ao público por conta de deslavada mediocridade limítrofe à estupidez. Baseada em série televisiva homônima de enorme sucesso nos Estados Unidos entre 1979 e 1985, e dirigida por Jay Chandrasekhar, é a história dos primos Duke, Bo (Sean William Scott) e Luke (Johnny Knoxville), que correm feitos loucos pelas estradas do sul dos EUA entregando bebida ilegal fabricada pelo tio Jesse (Willie Nelson). Os perseguidores são o xerife Roscoe (M.C. Gainey) e o cacique local, Boss (Burt Reynolds).
O humor, ainda que absurdamente tentado, é ausente. Os diálogos, deprimentes. A ação ruidosa prevalece nas perseguições automobilísticas, filmadas de maneira rasa, sem nem ao menos o trabalho de ostentar a tecnologia de efeitos. Os texto estão infestados de piadas velhas, racistas e sexistas. A cantora Jéssica Simpson mostra abusivamente seu físico no esplendor da recauchutagem, e prova ser dona dos shorts mais abreviados das redondezas embora dentro dos rigores da moda exibida nos últimos dias nas passarelas da cidade...

mockup