Ganhador da Palma de Ouro este ano em Cannes com o polêmico drama político de época ''The Wind that Shakes the Barley'' - sobre as origens do grupo terrorista irlandês IRA -, o inglês Ken Loach é sempre marca registrada do cinema como instrumento de denúncia política e/ou social. Tudo o que ele considera injusto ou abusivo é transformado em indignadas imagens reivindicatórias e de oposição. Seu espírito combativo é fundado em sólida formação leninista, o que o deixa hoje na contramão da história.
Mas isto não impede que sua visão profundamente crítica e coerente seja compartilhada por quem acredita que o cinema, além de mero entretenimento, é um eficaz veículo de transformações sociais capazes de transformar o planeta em habitat menos injusto e mais fraterno.
E não é que o sisudo Loach, dois anos antes de arremeter com rigor e talento contra a tirania inglesa na Irlanda no início do século passado, enveredou pelo improvável terreno do argumento romântico? Dito assim soa como traição, mas esperem até ver ''Apenas Um Beijo'', que estréia hoje em Londrina (veja a programação de cinema na página 2). É quase uma comédia romântica, sem dúvida, e um de seus filmes mais acessíveis; mas com o habitual adesivo da inquietação e da provocação.
Com o parceiro Paul Laverty de sempre - cúmplice, soa melhor -, o diretor Ken Loach sabe o que pretende quando arma sua história na Irlanda classe média dos dias de hoje. Como prólogo, uma jovem estudante de Glasgow faz um discurso para os amigos. Ela reivindica a diversidade do Islamismo e denuncia a simplificação que os ocidentais ou cristãos fazem de sua cultura de origem.
Embora de família paquistanesa, a garota estuda em colégio católico e torce para o time de futebol dos Glasgow Rangers. Quando o irmão mais velho vai buscá-la, ele conhece uma professora de música, irlandesa e anti-racista. A simpatia entre o paquistanês e a irlandesa é imediata e logo o amor toma conta do casal. A partir daí se instala o melodrama romântico: a relação esbarra no inflexível tradicionalismo da família paquistanesa, que rejeita a professora.
Ainda que aqui e ali concedam facilidades para cativar também aquele público que gosta de argumentos menos densos, e não apenas seu público mais comprometido, Loach e Laverty mantêm o costumeiro nível ético e cívico de sua proveitosa colaboração (seis longas), acentuando não a intensidade romântica - embora haja bem mais cenas explicitas de paixão do que habitualmente se encontra no cinema de Loach -, mas os conflitos, as denúncias de racismo, a intolerância e a xenofobia.
''Apenas Um Beijo'', como todos os filmes do diretor, impressiona pela ambientação e pelo retrato dos personagens, que fluem em interpretações convincentes. É bom, e é diferente, seguir na tela uma história de amor com um fervilhante entorno de conotações sociais e políticas.

mockup