A frase acima, tomada por empréstimo do derradeiro e intenso duelo verbal entre a protagonista do título e um de seus acusadores, é a síntese de ''Sophie Scholl - Uma Mulher Contra Hitler'', empenhado, sincero e envolvente drama alemão que estréia hoje no circuito local (veja a programação de cinema na página 2), credenciado ainda por uma dezena de influentes prêmios internacionais.
Construindo seu filme sempre com adequada sobriedade formal, o jovem realizador alemão Marc Rothemund 38 anos, Urso de Prata como melhor diretor em Berlim-2005 adaptou um fato histórico. Em fevereiro de 1943, derrotadas as tropas de Hitler em Stalingrado, jovens universitários de Munique, membros da organização de resistência anti-nazista Rosa Branca, fazem panfletagem clandestina para informar a população sobre as mentiras de um regime que já se sustentava não mais em fatos, mas na falsa propaganda.
Entre os estudantes estão os irmãos Sophie e Hans Scholl. Eles são presos em flagrante pela Gestapo. O filme, em estilo docudrama, mostra estes acontecimentos e se detém nos seis últimos dias da vida de Sophie, 21 anos, interpretada pela talentosa Julia Jentsch.
A existência de uma pessoa íntegra, ainda mais se é herói e ainda por cima real, sempre foi excelente ponto de partida para o cinema construir uma boa história. O diretor e roteirista Rothemund, consciente de que a força-motriz de seu filme estava no personagem, dirigiu o foco na busca da melhor documentação sobre Sophie, como testemunhas da época e a transcrição dos interrogatórios a que foi submetida. Feito isso, aprofundou os conflitos e selecionou um bom elenco, capaz de plasmar na tela o máximo de veracidade.
A reconstrução dos fatos chega ao espectador com minúcias. À exceção das sequências iniciais, em torno da detenção, o restante do filme se passa entre a prisão e o tribunal. Em que pese a dureza do tema, Rothemund encontra o tom correto sem cair em maneirismos dramáticos ou sentimentais pode-se contestar apenas um e outro excesso durante o julgamento. De resto, concentrou-se apenas no fundamental, deixando de lado tramas secundárias, fragmentação da montagem e uma maior liberdade no tratamento do tempo, elementos que poderiam resultar supérfluos, empobrecendo o conjunto.
Mais do que crônica política ou policial, ''Uma Mulher Contra Hitler'' é um drama sobre a evolução do personagem, uma jovem idealista que assume, em toda a dimensão ética, a transcendência de seu destino de heroína ''normal'' que ri, chora, reza, sofre, ama, fuma...e se encaminha para a execução com a certeza do veredito da História.
Há fundamentalmente dois tipos de filmes. Em sua imensa maioria, existem aqueles que alcançam o clímax pouco antes do famoso the end e são esquecidos à saída do cinema quase na mesma velocidade das imagens que passaram pela retina. E há aqueles, em numero bem menor, que começam a crescer na memória do espectador e se agigantam justamente a partir de seu término na tela. ''Sophie School'' pertence a este seleto e necessário segundo grupo.

mockup