Uma década depois do lançamento de ''Pulp Fiction/Tempo de Violência'', para o bem ou para o mal uma das obras mais influentes da última década do século 20, Quentin Tarantino apresenta ''o quarto filme de QT'', como ele mesmo ironicamente rotula seu novo trabalho nos créditos iniciais desta produção que estréia hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2). Ironicamente porque ''Kill Bill: Volume 1'' foi precedido por expectativa tão grande gerada a partir de ''Jackie Brown'' (1997) que o cineasta, pressionado pela pesada cobrança principalmente da crítica, colocou-se no centro de uma ruidosa campanha de marketing global para cercar a estréia mundial, em fins do ano passado.
Está ''Kill Bill'' à altura da expectativa? Para quem curtiu plantões e alimentou esperanças, a resposta é sim. E para quem não estava nem aí com o que Tarantino faria ou deixaria de fazer, a resposta é outro sim. Este volume 1 de ''Kill Bill'' é bom que o espectador saiba que, depois de 111 minutos, o filme termina abruptamente, à maneira dos velhos seriados de matinês, para prometer uma segunda parte que se poderá ver daqui a cerca de seis meses de imediato deslumbra pela ação permanente e pelo virtuosismo da mise-em-scène de Tarantino, de resto um diretor reconhecidamente brilhante desde sua estréia com ''Cães de Aluguel'' em 1992, alguém capaz de colocar a câmera no melhor ângulo possível e de manejar a duração de cada plano como se estivesse modelando uma peça de argila.
A partir da trama que tomou ''emprestada'' de ''A Noiva Estava de Preto'' (1968), de François Truffaut, Tarantino conta a história da Noiva (Uma Thurman), que no dia de seu casamento sobrevive por milagre a um massacre cometido por seus antigos colegas de um esquadrão de assassinos do qual um dia fez parte. Depois de quatro anos em coma profundo, ela desperta e inicia sua jornada de vingança. Na trajetória, de Los Angeles até Tókio, passando por El Paso e Okinawa, Tarantino aproveita para brincar com mitos, com a geografia, a musica e com o look desses lugares. Metade dos algozes é liquidada nesta primeira parte, a outra fica para o volume 2, inclusive o enigmático Kill Bill.
Tarantino, reconhecido rato de locadoras de vídeo, onde trabalhou como balconista durante muitos anos, continua encharcado de influências. Mais uma vez ele revolve o fundo dos depósitos de materiais recicláveis da história recente do cinema plebeu e de lá retira filmes de samurais, aventuras de kung fu dos anos 1960 e 70, a animação japonesa com base nos mangás, o coreográfico cinema de ação dos irmãos Shaw de Hong Kong e o western spaghetti de Sérgio Leone e outros menos votados. A estes elementos juntou um sem número de clichês da cultura pop dos anos 70 e liquidificou tudo. O resultado, que deixa no espectador uma espécie de prazer visceral, é uma desabusada colcha de retalhos, um patchwork estético-temático-estilístico que leva inquestionavelmente o selo cinéfilo de seu autor. É claro que quem tem na memória visual este manancial de referências vai se divertir em dobro.

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