Reiterando a velha lição: há ocasiões em que o silêncio resulta muito mais eloquente do que as palavras, por bem escritas que estejam ou por muito convincentes que soem. Há ocasiões em que a emoção resiste a qualquer tipo de análise, momentos mágicos em que a tela transmite alguma coisa que entra pelos olhos e vai lá no fundo, ao coração, às entranhas ou onde quer que se esconda essa nossa porção que não entende de razões e explicações, que se limita a sentir e a ligar-se a uma emoção pura. Alguns filmes, raros, são assim mesmo, fazendo do espectador-destinatário o cúmplice privilegiado do artista-remetente, filmes que apelam ao fundamental, ao tema mais universalmente retratado não apenas pelo cinema, mas por qualquer manifestação artística , fonte inesgotável de histórias: o amor, a necessidade de afeto, a fuga da solidão, desse vazio emocional que parece tão intrínseco ao ser humano.
Disto basicamente é o que trata ''Encontros e Desencontros'', em lançamento a partir de hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2). Ele pertence a este grupo privilegiado de filmes, obras tão diferentes entre si em tramas e resultados, como ''Desencanto'' (David Lean, 1945), ''As Pontes de Madison'' (Clint Eastwood, 1993), ''Antes do Amanhecer'' (Richard Linklater), ''Uma Relação Pornográfica''( Frederick Fonteyne, 1999) ou ''Amor à Flor da Pele'' (Wong Kar Wai, 2000). ''Encontros e Desencontros'' parte do argumento mais elementar do mundo (um homem, uma mulher e a relação que se estabelece entre eles) para refletir sobre aquilo que a maioria alguém duvida? considera a parte essencial da existência, este universo tão apaixonante quanto frágil e fugaz que todos aspiramos experimentar em toda a intensidade ao menos uma vez na vida.
Bill Harris (Bill Murray, meu Oscar afetivo), espécie de alter ego de si mesmo, é um ator maduro vivendo um momento de entediada expectativa na carreira e não só profissionalmente, mas nota-se certo risco de naufrágio existencial (''Tenho que me preocupar, Bob?'' , pergunta pelo celular a mulher. ''Somente se você quiser'', responde ele). O ator está em Tókio, cumprindo generoso contrato publicitário para promover uma conhecida marca de uísque. Tudo o que sabemos dele é revelado em um par de frases, e sobretudo pela expressividade desse grande e via de regra sub-aproveitado Bill Murray.
Charlotte (Scarlett Johansson, melhor atriz por este trabalho em Veneza-2003) é uma jovem na casa dos vinte e poucos, recém-casada com um fotógrafo ocupado demais com suas tarefas. Ela também está em Tókio, com o marido. Sozinha, tentando compreender o vazio que começa a pesar em demasia (''Hoje fui a um templo budista, havia monges rezando e não senti absolutamente nada'', confessa impotente e aos prantos a uma amiga, pelo telefone) e que faz sentir mais e mais perdida. Bob e Charlotte compartilham o mesmo cenário, um hotel imenso, asséptico e impessoal. De certo modo, a construção os protege de um terceiro importante protagonista da história: a megalópole lá fora, uma cidade modernosa e frenética, que não chega a ser hostil, mas é iluminada em demasia, barulhenta demais e portadora de uma cultura estranha. Tudo contribui para que Bob e Charlotte fiquem ainda mais confusos, vazios e perdidos. É apenas questão de tempo: estão fadados ao encontro. E ao entendimento.
Entre outras coisas, ''Encontros e Desencontros'' que título de perfeita ambiguidade, o original ''Lost in Translation'' (Perdidos na Tradução)! é uma história de amor agridoce. Uma comédia dramática, alguém rotularia com doses de razão. Ou uma comédia romântica, para injetar dignidade ao gênero que Hollywood abastardou. Na verdade não há mapas para orientar-se nesta relação sem nome que nasce de olhares, de encontros no bar e se desenvolve entre silêncios e escapadas cúmplices até chegar a uma maneira de conviver, a uma intimidade que atravessa os trinta anos que separam Bob e Charlotte (o eloquente erotismo fica por conta de um mínimo roçar de mãos, em maravilhoso plano que focaliza o casal na cama).
Filme de climas e atmosferas, pequeno e sutil, inclassificável porque não se ajusta a nenhum clichê do gênero, ''Encontros e Desencontros'' reafirma o talento que Sofia Coppola já deixara bem delineado em ''As Virgens Suicidas''. Num tempo em que o cinema parece depender como nunca do diálogo como meio de expressão, ela busca com sofreguidão todas as possibilidades da imagem para contar uma das mais fascinantes e charmosas histórias de amor dos últimos tempos.

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