CINEMA/ESTRÉIAs - A inexplicável natureza humana
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 01 de junho de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Para o cinéfilo que busca se atualizar com novos valores do cinema mundial que não frequentam o chamado circuitão comercial, mais uma chance de ouro. O nome é Arnaud Desplechin, visitante raro às salas brasileiras. O filme, ''Reis e Rainha'', é o terceiro dele e lançamento de hoje no espaço alternativo da cidade (veja a programação de cinema na página 2). Não há gênero ou estilo precisos onde encaixá-lo, mas há profundas afinidades com as generosas intenções humanistas de um clássico como Jean Renoir e com o refinamento psicológico de outro cult histórico, Max Ophuls.
Quando se pergunta a alguém pela verdade acerca de nós mesmos, pode-se até receber como resposta a verdade, ou parte dela, ou nada dela. Mas certamente se obterá aquilo que seu interlocutor quer que se pense que é a verdade. É bom ter esta noção ao alcance durante a projeção de ''Reis e Rainhas'', um filme que se desenrola como uma espécie de tribunal onde todos os testemunhos parecem ser a verdade simples, mas nenhum deles parece afinal estar de acordo. O estímulo é o contraditório.
Para começo, temos um personagem chamado Nora (Emmanuelle Devos, sustentando com bravura enorme gama de emoções), esperta, chique, luminosa, egoísta, dona de galeria de arte que acaba de comprar um livro raro para dar de presente ao pai Louis, autor famoso (Maurice Garrel) que sofre dores atrozes por causa de um câncer no estômago. O que ele pensa sobre a filha, e ela dele? O espectador pensa que sabe.
Então conhecemos outro personagem, um violinista chamado Ismael (Mathieu Amalric). Ele foi o mais recente namorado de Nora. Ele é uma mente funcional e centrada, mas se comporta tão insensatamente (anda na rua com uma capa de mosqueteiro) que acaba internado num hospital psiquiátrico. Ali ele desenvolve estimulantes relacionamentos com a administradora do hospital (Catherine Deneuve, coadjuvante de luxo, discreta mas intensa), com sua psiquiatra (Elsa Wolliaston) e com uma jovem paciente suicida em potencial (Magali Woch).
De casamento adiado por causa do pai em agonia, Nora é a ''rainha'' do título, agora fechada na dor e na solidão. Das certezas que tinha ficaram dúvidas. Ela tem um filho. E pelo filho ela busca uma figura masculina para substituir o avô que está findando. Pode ser Ismael. Ismael é um dos ''reis'' que a circundam. Ele passa por processo inverso, descobre as próprias certezas ao ser confrontado com os sentimentos dos outros.
O diretor Desplechin multiplica habilidade e talento na exposição e balizamento deste retrato de vidas ordinárias. Em sua parte inicial, ''Reis e Rainhas'' parece um convencional pacote de emoções, mas logo estas emoções vão resultar superficiais quando se alcança o patamar de desesperações mais profundas. Por exemplo, os sentimentos do pai terminal são particularmente dolorosos pela maneira que ele escolheu para revelá-los.
Com todos os ingredientes para cair na pior das auto-complacências, Desplechin opta por um mosaico no qual convivem placidamente diferentes gêneros e opções formais opostas. Assim, o filme salta com desenvoltura do melodrama mais extremado à comédia mais ligeira, das formas extraídas de certo classicismo (o suspense hitchcockiano) aos recursos mais contemporâneos (tela fracionada com vários planos simultâneos, mescla de formatos, câmara no ombro), do hip hop ao pop e das homenagens aos compositores Bernard Herrmann e Henry Mancini chegando até a música clássica.
E quando se trata da trama, ele está sempre em busca de um espaço ambíguo, distante das certezas formais e morais. Como convém, aliás, a um filme que tenta compreender a luminosidade da vida, o silêncio da morte e, via de consequência, o quanto é inexplicável a natureza humana.


