CINEMA/ESTRÉIAS - A força do cinema da Austrália
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de outubro de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Até o final dos anos 1970, a Austrália não tinha nenhuma indústria cinematográfica significativa, nem um cinema com a cara do país. Hoje ambos existem e muito fortes. Mas se há três décadas os primeiros filmes chamaram atenção mundo afora com temas tendendo ao exótico, como a busca da identidade nacional e a relação quase sempre mística entre colonizadores e aborígenes, em meados dos anos 1980 os realizadores se voltaram para ambientes e assuntos diversificados, menos românticos e heróicos: a vida e os problemas ordinários nos subúrbios das maiores cidades costeiras do país. Neste contexto se inscreve o recente e extraordinário Sob o Efeito da Água, hoje em lançamento na cidade (veja a programação de cinema na página 2).
Ambientado no populoso bairro chamado Little Saigon assim batizado por causa dos muitos imigrantes asiáticos lá estabelecidos , afastado do centro comercial de Sidney, o filme assesta seu foco na figura de Tracy (Cate Blanchett), mulher de 32 anos, há quatro livre do vício da heroína. Limpa e sóbria, ela trabalha numa locadora e planeja obter um empréstimo bancário para abrir um web point em sociedade com seu patrão vietnamita. O irmão dela, Ray (Martin Henderson), perdeu uma perna em acidente e vive de esmolas.
Mas as coisas não serão fáceis para Tracy. Do passado ressurge o ex-ídolo de futebol e viciado Lionel (Hugo Weaving, de Priscila, Matrix e O Senhor dos Anéis), amigo da família e responsável pela iniciação de Tracy nas drogas. Quem reaparece também é Jonny (Dustin Nguyen), ex-namorado dela que também se livrou das drogas e agora se diz empresário de sucesso. Mas tem coisas a esconder.
Estas e outras informações sobre estes e outros personagens, como o bissexual gangster local, um barão das drogas conhecido como The Jockey (Sam Neill, de O Piano), são pouco a pouco alimentadas pelo diretor Rowan Woods e sua co-roteirista Jacqueline Perske. Ao mesmo tempo em que instigam os atores a elaborar interpretações de intensa naturalidade, eles convidam o espectador a trabalhar com mais acuidade as relações ambíguas entre os personagens.
Na verdade, Tracy e os demais parecem nunca conectados com a realidade. Todos estão envolvidos em mentiras e trapaças, agora potencializados pela volta do fantasma do passado. E o caminho que se apresenta é um imbróglio que desdobra a narrativa em direção thriller criminal.
Rowan Woods conduz o filme de maneira seca e nada sentimental, sempre buscando o não-clichê muito comum nestas circunstâncias de dramaturgia. As performances são diretas, quase musculares, especialmente de Cate Blanchett, cuja presença magnética em cena não deve dar vida fácil a qualquer diretor. Mas Woods dá conta do recado. O título original, Little Fish, pode se referir tanto aos pacotinhos de droga como às pessoas que transitam pela trama, vítimas e sobreviventes num vasto e predador universo. E a água do título traduzido também se justifica em duas imagens relacionadas: natação e praia.


