Antes tarde do que nunca. Lançado há mais de dois meses no Brasil e na iminência de chegar às locadoras do País - a Delta Vídeo confirma a disponibilidade de cópias em DVD já para o final da próxima semana -, ''Conduta de Risco'' está a partir de hoje em exibição em Londrina (confira a programação de cinema na página 2). Oito vezes nominado ao Oscar (ganhou um para a coadjuvante Tilda Swinton), é um bom, sólido filme, que se inscreve na linhagem nobre dos confiáveis dramas de denúncia que Hollywood, quando quer, sabe fazer aliando boa conversa e sentido de espetáculo.
Sempre à caça de roteiros com alma, George Clooney e seus sócios nesta produção, Steven Soderbergh e Sidney Pollack, encontraram um veículo irretocável neste atraente ''Conduta de Risco''. Clooney faz o perdedor com consciência em meio a uma retorcida intriga com lição de moral e denúncia social, aterrorizante em seu desenvolvimento, repleta de atmosfera, com uma metodologia narrativa que ilude em seu início e adquire pleno sentido no desenlace. Nenhuma dúvida: é um tratado sobre a ética. Ou a ausência de.
O que a trama narra não é original, mas quando bem contado é sempre estarrecedor. Trata da essência predadora do poder, da tenebrosa falta de escrúpulos e o desprezo por este bem tão aleatório chamado sentido moral, das leis selvagens que regem o comportamento das grandes corporações. Fala da corrupção como moeda pragmática de cambio, da implacável e sinistra metodologia para calar qualquer tentativa de resistência, incerteza ou deserção - o grande ator Tom Wilkinson oferece dolorosa consistência a este desespero. No centro da intriga, um crime ambiental, suas letais consequências e as responsabilidades legais que isto acarreta.
Como o título original e a presença vistosa do ator não deixam dúvidas, Clooney interpreta Michael Clayton com a contenção que o caracteriza. Atormentado por dívidas de jogo e preso em dilema moral que mal lhe dá espaço para respirar, ele incorpora apenas internamente a transformação de seu personagem. Sobre ele está depositado quase todo o andamento da proposta. É um habilidoso perdedor, um homem para tudo, o advogado-coringa na manga de uma poderosa firma de advogados, o lavador de roupa suja dos clientes da empresa, um tipo nada modelar que não conseguiu realizar seus sonhos e vive sem convicção num irregular entorno de família.
Clooney, não por acaso na recente lista dos cinco candidatos ao Oscar de melhor ator, é portador desta qualidade reservada a uma seleta minoria que consegue interpretar alguém próximo da vilania, o anti-herói, o tipo nem especialmente simpático nem exemplar, sem renunciar a sua natureza de estrela, sem desfigurar o rosto. E sem se intrometer na condução do filme, outro mérito para quem concentra tanto poder na frente e atrás das câmeras.
Na direção estreante, o sagaz Tony Gilroy, roteirista da trilogia Bourne, imprime um ritmo vivo e hipnótico, mas nunca trepidante a este thriller, que permite inclusive pausas contemplativas para que tanto o personagem quanto o espectador reflitam sobre uma nada reconfortante realidade contemporânea.

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