CINEMA/ESTRÉIA Um thriller à deriva
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de junho de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
O primeiro sinal de alerta, aqui funcionando mesmo como mau presságio, é o roteiro sem a assinatura do diretor Philip Kauffman, alguém com lugar garantido na história do cinema pelo menos por dois títulos de antologia realizados nos anos 1980: ''Os Eleitos'', irônica exaltacão da conquista do espaço pelos cosmonautas americanos, e o afresco político-sexual ''A Insustentável Leveza do Ser'', refinada adaptação do best-seller de Milan Kundera sobre a Primavera de Praga. O segundo indício premonitório é que o gênero em questão é o thriller, e a maioria dos thrillers recentes saídos de grandes estúdios padecem exatamente da mesma enfermidade: todos apresentam um bom primeiro ato, uma abertura estimulante, e então deterioram sem apelação.
Este ''A Marca'', lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2), abre com um ótimo plano - de fato, é um plano glorioso, que traz à lembrança o diretor Kauffman em sua melhor forma. Na tela quase inteiramente branca, surgem aqui e ali por entre espessa neblina alguns pedaços da ponte Golden Gate. É tão denso o nevoeiro que céu e água parecem fundidos e a ponte parece levitar em meio ao nada. Uma beleza. E é só, porque a partir daí o espectador está preso nos limites da narrativa de repertório, onde as coisas são todas muito (pre) visíveis.
Com seus negros cabelos curtos, Ashley Judd está de volta, e novamente em perigo, uma situação repetitiva que para a atriz já é quase um sub-gênero. Ela acaba de ser promovida, de detetive para inspetora de polícia em Los Angeles. Ela é como outros policiais, só que melhor, uma exímia decifradora de pistas. Mas quando o dia termina, pode ser encontrada em bares obscuros à procura de companhia para sexo casual. É uma garota saudável e muito resistente nestas práticas libidinosas e etílicas, que não liga a mínima se são ou não promíscuas. Seu histórico familiar é marcado por registros psicóticos - o pai matou a mãe e se suicidou quando a garota só tinha seis anos. E a história, assim como Hollywood, tem esta tendência imutável de se repetir. Isto não deve ser esquecido, quando nosso serial killer de plantão der as caras.
O ''Twisted'' (torcido, retorcido) do título original é exatamente porque o assassino extermina exclusivamente ex-parceiros sexuais da moça - seria uma forma de punição, alguma inusitada espécie de tiro pela culatra? E os crimes somente ocorrem naquelas noites em que ela tem blackouts de memória e não se lembra por onde andou. Compreensivelmente, os indícios apontam contra ela. Mas nosso suspeito, reza a tradição do óbvio irritante, está em outra direção, talvez não muito distante. Poderia ser o novo parceiro dela, Andy Garcia? Ou quem sabe seu patrão e mentor, Samuel L. Jackson? Ou ainda o ex-namorado ciumento, Mark Pellegrino? Ou talvez a vizinha, a misteriosa mulher asiática que pela janela bisbilhota o apartamento de Jessica?
Um filme que começou com irresistível promessa poética é miseravelmente ''twisted'' pelo meio do caminho e termina num amontoado de clichês catalogados em roteiro tolo e incompetente, quando não ridículo, assinado por Sarah Thorp. Mas a culpa, infelizmente, deve ser dividida com Kauffman, que assina uma das mais desleixadas direções dos últimos tempos - e olha que em Hollywood isto não é privilégio de poucos. O único do elenco que parece compreender que está num mau filme é Samuel L. Jackson, que acaba tirando assumida vantagem disso ao direcionar seu personagem para um curioso overacting.


