''A Ilha do Tesouro'' não chega a ser uma novela intocável e pode não desfrutar de prestígio intelectual igual ou maior que ''A Odisséia'' e ''A Ilíada'', embora chegue muito perto disso, especialmente no universo anglo-saxão. Mas a novela de Robert Louis Stevenson é de fato uma jóia literária, e até mesmo um mito para uma legião imensa de leitores. E como não poderia deixar de ser quando a fonte é ilustre, os grandes estúdios se atreveram com ela quase todo material literário não caiu um dia na malha fina de Hollywood, com todas as liberalidades que se conhece?
O pessoal dos estúdios Disney que trabalhou neste ''O Planeta do Tesouro'', longa de animação estreando neste fim de semana em todo o país (veja a programação de cinema nesta página), declara-se não apenas admirador do livro mas também uma espécie de fanático seguidor de uma seita. Declararam que se trata de um dos textos literários essenciais para suas vidas. Mas pelo visto, foi uma adaptação sem cerimônia: a ilha se transformou em planeta, o mar em cosmos e quase todos os personagens em animais ambíguos como cães, sapos, aranhas e gatos, além de um robô até que bem divertido mas que não teria existido não fosse ''Guerra nas Estrelas'', e de um cyborg um corpo metade homem ou animal e metade máquina.
Uma correta animação bi ou tridimensional arquitetada por eficientes profissionais, uma dupla de simpáticos personagens secundários, algumas sequências isoladas que atingem essa típica espetaculosidade das aventuras épicas. Isso e pouco mais é o que oferece este ''Treasure Planet'', versão futurista da narrativa de Stevenson que transforma os galeões do século 18 em naves espaciais, e os impiedosos piratas em cyborgs de última geração. Escrito para o cinema e dirigido por John Musker e Ron Clemens, que obtiveram resultados bem superiores em ''Alladdin'' e ''Hercules'' , ''O Planeta do Tesouro'' reúne todos os elementos e personagens que poderiam transformar o argumento num fascinante filme de aventuras: Jim Hawkins, jovem rebelde transformado em herói para orgulho de sua mãe solteira; o dr. Dopppler, patético cientista que financia a expedição em busca do tesouro do título; John Silver, o pirata malvado e contraditório que planeja motim a bordo; uma capitã muito afinada com os ventos feministas; e dois mascotes, Morph e o andróide B.E.N., aqueles tipos cheios de travessuras e diálogos engraçados. Então o que deu errado ?
A debilidade que compromete está no roteiro de Musker e Clemens, esquemático, artificial, previsível e raso não apenas para a tradição Disney, mas para os sócios da Pixar ou os concorrentes da DreamWorks. É como se todo o departamento de animação, com todos os recursos à mão, estivesse ali, somente à espera de idéias originais e detalhes engenhosos ou surpreendentes, para então entregar mirabolantes proezas visuais. Que nunca aparecem. Não poucas vezes a combinação entre vertigem, imagens tridimensionais e música estridente levam ''O Planeta do Tesouro'' para uma fórmula de videogame. O bom cinema encontrado em ''A Bela e a Fera'' e ''O Rei Leão'' está muito distante. E o eventual deleite, afinal, é puramente técnico. Sensibilidade e poesia passam ao largo de ''O Planeta do Tesouro''.

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