Era mesmo pedir muito de uma instituição tão artisticamente duvidosa e tão politicamente instável quando não incorreta como a Academia de Hollywood. Depois do último ''esforço concentrado'' ao premiar ''Beleza Americana'', era previsível que ''As Horas'', drama intimista de digestão complicada, ficasse relegado a plano inferior entre o quinteto de concorrentes ao Oscar máximo deste ano. Não apenas por sua construção humanista de delicados matizes psicológicos, mas também porque sua tonalidade, digamos, acinzentada, não condizia com os tempos ''heróicos'' pra lá de Bagdá, tempos bem mais amorfos e bem à feição do inconsequente ''Chicago''.
E hoje, depois de inexplicável atraso em relação a outros centros lançadores, ''As Horas'' finalmente chega a Londrina (veja a programação de cinema na página 2). O filme é a história de três mulheres e três épocas, unidas pela obra de Virginia Woolf, ''Mrs. Dalloway''. Pode ser pouco para uns, e um universo inesgotável para outros. O convite é para compartilhar a segunda alternativa.
Publicada em 1998, a novela ''The Hours'', de Michael Cunningham, foi celebrada como um relevante acontecimento literário. Levou o Premio Pulitzer, e uma das razões da premiação foi reconhecer a façanha do autor, que reelaborou uma obra canonizada e produziu uma outra, própria e original. Em 180 páginas (Companhia das Letras, 1999) Cunningham descreveu como três mulheres, três individualidades, pertencentes a três épocas históricas, são reunidas como participantes de uma só situação: estão vivendo suas vidas para outras pessoas.
Virginia Woolf (Nicole Kidman). Uma mulher com caráter em plena década de 1920, que se recupera de sua loucura cotidiana escrevendo dia e noite a novela ''Mrs. Dalloway'' em um subúrbio de Londres. O marido, Leonard (Stephen Dillane), cuida da saúde dela ao mesmo tempo em que tenta acompanhar sua peculiar maneira de conceber a vida Virginia Woolf, único personagem que viveu de fato fora do filme, lançou o livro em 1925 e foi bandeira do movimento feminista.
Laura Brown (Julianne Moore). Típica mãe e dona de casa na Los Angeles do imediato pós Segunda Guerra. Vive com o marido exemplar, Dan Brown (John C. Reilly), o filho pequeno e outro em gestação. Tem tudo para ser feliz, e no entanto se encontra vazia. A leitura de uma novela reveladora, ''Mrs. Dalloway'', é a motivação para uma drástica mudança de vida.
Clarissa Vaughan (Meryl Streep). Intelectual de Manhattan, anos 1990. Convive com outra mulher mas continua apaixonada de seu amigo e ex-amante Richard (Ed Harris), poeta talentoso e aidético terminal que quer dar uma festa para comemorar um premio literário que acaba de ganhar. Clarissa é uma espécie de Mrs Dalloway versão fim de século.
Essas três histórias se cruzam e afinal se unem num momento surpreendente e transcendental de reconhecimento compartilhado. Quando o produtor Scott Rudin comprou os direitos da novela de Cunningham, gente de cinema andou se perguntando como uma peça literária não linear e tão matizada poderia ser transposta para a tela. Não que fosse um desafio original, já que a idéia de entrelaçar diferentes histórias em épocas diferentes tinha sido várias vezes visitada pelo cinema já em 1916 o pioneiro D.W. Griffith inovava mostrando etapas decisivas da ''Intolerância'' através dos tempos. A adaptação de ''As Horas'' representou um grande desafio, não apenas para o produtor, mas também para o diretor Stephen Daldry recém-saído do bom melodrama social ''Billy Elliot'' e para o consagrado dramaturgo e roteirista David Hare. O trio suou a camisa para montar o quebra-cabeças, que vai sendo decomposto à medida em que a história avança, terminando por chegar ao público com toda a força dramática do texto original.
O livro de Cunningham, como uma ressonância a ''Mrs. Dalloway'', avança a partir do despertar da consciência das mulheres, e por isso era complicada sua transposição para o cinema. Para não cair na clássica narrativa em off e nem nos elucidativos mas perigosos flashbacks, o roteirista Hare inventou uma série de acontecimentos que expressam o que ocorre no interior dos personagens á como a conversa entre Laura Brown e o marido a respeito de como se conheceram, e que dá bem a medida da monotonia da vida americana, pelo menos para a mulher.
''As Horas'' fala muito diretamente às mulheres, e secundariamente aos homens que estão juntos por esses caminhos às vezes tão difíceis a dois. ''As Horas'' fala sobre a quantidade de possibilidades que a vida apresenta, e do custo das decisões penosas, o custo das pequenas alegrias, das transformações da vida. O filme é sobre como três mulheres demonstram a coragem de viver e eleger seu caminho, de enfrentar uma luta difícil e de capturar aqueles poucos momentos de felicidade possível.
É óbvio que para falar sobre sentimentos e sensações filtrados pela razão o ritmo teria que ser lento. E a tensão é fria, apesar do drama que se aprofunda. Pelo andamento, percebe-se que qualquer fato terrível pode ocorrer a qualquer momento. Mas a ansiedade relaxa, uma e outra e ainda outra vez. No filme se chora, mas nunca aos prantos. Sofre-se, mas em silêncio. Questiona-se a vida, mas não há respostas definitivas. A gama de misérias e grandezas humanas, que desfila diante do espectador por quase duas horas, faz do filme um poderoso estudo de nossa natureza.
Nicole Kidman concentra com sensibilidade extra a consciência de auto-destruição de Virginia Woolf, enquanto Julianne Moore está nada menos que esplêndida como mulher frustrada. Os demais - Meryl Streep, Ed Harris, Miranda Richardson, Toni Colette, Clare Danes, Jeff Daniels, John C. Reilly - são o melhor elenco que um amadurecido Stephen Daldry poderia desejar.
Para muitos, ''As Horas'' pode ser a primeira abordagem da obra de Virginia Woolf, como foi ''Frida'' para que as pessoas conhecessem a pintora mexicana Frida Kahlo. Neste sentido, o espectador poderá ter a incômoda impressão que ficar de fora de vários acontecimentos que ocorrem durante o filme. Nem por isso ''The Hours'' deixa de ser recomendável ou desfrutável, mas não seria demais conhecer um ou outro dado sobre esta mulher que agitou o mundo da literatura, questionou o papel de submissão da mulher e lutou pela liberdade com a palavra escrita.

mockup