Cinema/Estréia HQ merecia versão mais digna
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de março de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Quando se adapta um comic tão clássico como ''Daredevil'' (ou ''Demolidor''), o mínimo exigível seria, logo de saída, a consciência dos vários riscos que a transposição de um cult de papel acarreta. E esses riscos, de modo geral, se resumem em dois, já que no fundo tal espécie de filme tem dois públicos destinatários. O primeiro é aquele do fiel leitor, o fanzine, o amante regular da história em quadrinhos. O outro é formado pelo espectador comum, habitual, também amante, mas tão somente do bom cinema, seja de que gênero for. Em ambos os casos, para ambas as platéias, o lançamento nacional ''Daredevil'' (veja a programação de cinema na página 2) é um fiasco, uma irritante decepção.
''Demolidor'' é o mais recente super-herói de HQ (leia-se Marvel) a chegar aos cinemas, inspirado em personagem idealizado em 1964 por Stan Lee (criador de Spider-Man e X Men) e Bill Everett na verdade, Stan Lee deu vida a Daredevil como um companheiro eventual de Spider-Man, mas o sucesso acabou dando ao novo herói seu próprio e exclusivo espaço, ainda que não seja nome dos mais populares na galeria dos comics. Ele é o homem que faz a ronda noturna em Nova York, vigiando para que nenhum inocente sofra injustiças cuidando, com as próprias mãos, para que o crime seja punido pela lei. Daredevil é um ex-menino sofredor, órfão de mãe e assombrado pela lembrança do assassinato do pai e dos maus tratos dos companheiros. Há um detalhe relevante: o destemido Daredevil, aliás o advogado Matthew Murdock, é cego. Na infância, recebeu no rosto um produto biológico tóxico. A chamada lei da compensação aguçou à perfeição os demais sentidos, facilitando sua tarefa de novo herói urbano. O tal produto, além do mais, deu poderes especiais que o permitem ''ver'' mediante um radar, como os morcegos. Quando surge a violência, o super-herói está por perto.
Em algumas ocasiões ele terá que enfrentar os vilões Kingpin e Bullseye. Nesta trama, a dupla pretende eliminar o pai de uma garota que Daredevil acaba de conhecer como Matthew Murdock. Obscuro, terrivelmente retorcido, uma jóia do estilo dark pelas mãos de Frank Miller se tornaria o mais adulto dos personagens da grife Marvel , as histórias impressas de Daredevil sempre seguiram uma linha muito parecida com a de Batman. E é aí que a receita do (mau) diretor e (pior ainda) roteirista Mark Steven Johnson começa a desandar. O leitor fiel que procura seguir as pegadas de seu personagem preferido vai encontrar somente um espetáculo vazio, realizado com grande orçamento mas sem nenhum dos matizes de ''film noir'' que possui o original. Além disso, vai tropeçar na inexplicável liberalidade que trocou a cor do vilão Kingpin, interpretado pelo bonachão Michael Clarck Duncan, que nunca chega a ser o mal encarnado. E, se não bastasse, a relação com a sangrenta assassina Electra (Jennifer Garner) se reduz no celulóide a um inocente flerte balanceado por adocicados hits pop do momento. Em meio a sequências ruins, há pelo menos uma ridícula a rigor: a do baile-sedução-luta-encontro de Matt e Electra entre meninos e jogos metálicos. Sem comentários a falida cena de sexo. Falta originalidade, sobram simplismo, esquematismo e clichês num rol infinito de frases feitas, baratas e tão antigas como o cinema. As sequências de ação, explicitamente de lutas, são herdeiras diretas e assumidas de ''Matrix'' e ''Tigre e o Dragão'', mas situadas em contexto impróprio. E afinal, o que fazer com este anti-ator Ben Affleck, um dos principais responsáveis por um filme aborrecido, ordinário e descartável à primeira vista? Nem Jennifer Lopez deve ter a resposta.


