CINEMA/ESTRÉIA Guerra, desastre e cinema, pós 11 de setembro
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de abril de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Diante da insolúvel precariedade de um filme-desastre (em todos os sentidos) como ''O Núcleo - Missão ao Centro da Terra'', em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2), resta o consolo de especular livremente sobre os mecanismos ideológicos de Hollywood. Ou o cinema como suporte de um tipo muito preciso de paranóia que, depois de desativada pós guerra fria, volta agora a ser valiosa enquanto produto de exportação na ''balança de pagamentos'' dos Estados Unidos.
A história social do cinema ensina que a guerra traz filmes de esperança e afirmação, enquanto períodos de ansiedade produzem filmes sobre desastres. Apesar da recente insistência da Academia com o diversionista ''Chicago'', a regular política de intervenção americana e o 11 de setembro deram um chega pra lá nos limites mais estreitos dessa teoria. Que de resto e de fato foi mesmo historicamente avalizada pela prática, traduzida em dezenas de títulos.
A queda espetacular das torres gêmeas do WTC, presenciada ao vivo por milhões de espectadores, embolou tudo de tal forma que Hollywood freou qualquer ficção similar. O que estava pronto foi engavetado sem previsão de uso, o que vinha em produção recebeu sinal vermelho e o que estava ainda no papel teve que ser reescrito, agora com o endosso das garras afiadas da águia americana, ou como alguns preferem, dos falcões do Pentágono.
Um filme como ''O Núcleo - Missão ao Centro da Terra'' (The Core) não podia ser mais providencial para o 7º de Cavalaria ora em operações no outrora sagrado eixo Tigre-Eufrates. A produção era uma daquelas postas em quarentena, já que vinha recheada de catástrofes provocadas por algo letal - mesmo que o inimigo a ser combatido e derrotado fosse uma ameaça sem rosto. O lançamento sofreu alguns retardos durante o ano passado, já que não havia efeito especial capaz de suplantar a magnitude do esfacelamento das torres de Manhattan. Novos artifícios visuais foram criados, e o filme afinal ficou pronto para lançamento nos EUA com data marcada para 28 de março. Não por coincidência, a invasão ao Iraque já ia adiantada quando ''The Core'' ocupou mais de 2 mil salas do grande circuito americano.
Na ficação (ou realidade?), alguns acontecimentos colocam o Pentágono em alerta. Sem causa aparente, de repente, simultaneamente, estranhos fatos acontecem. Em Boston, sem explicação, pessoas caem no chão e morrem. Inocentes pombas sobre Trafalgar Square entram em parafuso e se chocam com monumentos, automóveis e transeuntes, provocando pânico. De volta à Terra, uma missão da NASA acaba aterrissando em Los Angeles na hora do rush, por conta do descontrole dos aparelhos da nave. A ponte Golden Gate e o Coliseu em Roma entram em colapso. Portadores de marca-passo morrem. Mas o que estaria causando essas anomalias? Um destruidor fenômeno geológico ou alguns fanáticos e suicidas terroristas fundamentalistas? Ocorre que o núcleo do planeta interrompeu o movimento que determina sua rotação por causa das mudanças drásticas impostas pelo homem ao campo eletromagnético que circunda e protege a Terra (realidade: vide Protocolo de Kioto, não referendado pelos EUA). E assim o que vem por aí é nada mais nada menos do que o fim do mundo. O remédio é drástico: por ordem do mesmo Pentágono, é constituída a ''Missão ao Centro da Terra'', destinada a destruir o inimigo em seu próprio território, seja onde for, na Somália, Coréia do Norte, nas cavernas do Afeganistão ou no Iraque.
E entram em cena os heróis, libertadores da raça humana. O jovem geofísico com sorriso de galã e espírito de Indiana Jones (Aaron Eckhart); o auto-suficiente colega dele (Stanley Tucci); um geólogo francês especialista em armas (Tcheky Karyo); o indefectível cientista louco que constrói sua nave no meio do deserto (Delroy Lindo); a exímia garota-piloto (Hilary Swank) e o nerd-hacker que vive entre computadores (DJ Qualls). Este pequeno exército é o suficiente para ir até a causa de tudo e reverter a situação. Depois da primeira meia hora em que se coloca razoavelmente as linhas gerais do argumento e se apresentam os personagens, a partir daí é permitido supor absolutamente tudo, como catástrofes diversas, efeitos especiais às dúzias (surpreendentemente ruins), despropósitos e rasgos de heroísmo na linha mediática oficial (vide CNN).
Com um elenco sem grandes astros, jamais fica muito claro quem vai morrer primeiro. Mas é certo que o geólogo francês não vai conseguir - afinal ele é de outra nacionalidade, e por azar ainda leva na carteira a foto de seus filhos adoráveis. Os demais sobrevivem, neste filme que acaba sendo uma mistura destrambelhada entre o sempre saudoso clássico ''Viagem ao Centro da Terra'', de 1956, e o trombeteiro ''Armaggedon'', de 1998. Mas pode muito bem ser visto ainda como interessante exemplo de alinhamento hollywoodiano como subliminar ponta de lança ideológica a serviço dos planos expansionistas de Bush Jr.


