CINEMA/ESTRÉIA
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de maio de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Nos créditos iniciais de ''O Ultimo Suspeito'', em lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2), um farto material de arquivo onde predominam o tom sépia mostra o que algum dia foram as imponentes praias de Long Beach, região de Long Island com predomínio de balneários famosos, com seus hotéis de luxo e os cassinos opulentos. Nada disso restou nos tempos presentes. Esta cidade a apenas 30 minutos de Manhattan é agora um ajuntamento de prédios abandonados, vidraças quebradas e terrenos quase abandonados, servindo apenas de referência para indigentes e marginais sem-teto. ''É como se por aqui tivesse passado o exército sérvio'', alguém comenta ironicamente num dos primeiros diálogos do filme.
É nesse cenário de geografia arrasada que vai se desenrolar boa parte desta irregular mas até certo ponto estimulante combinação entre o policial de carpintaria mais clássica e o melodrama familiar. ''City by the Sea'', assinado pelo inclassificável escocês Michael Caton-Jones (''O Dia do Chacal'', ''Memphis Belle''), está longinquamente baseada em matéria premiada (com o Pullitzer) que o jornalista Mike McAlary escreveu em 1997 para a revista ''Esquire''. O referido material está veiculado na íntegra no material impresso, ou o ''press release'' distribuído à imprensa especializada, e também disponível no site oficial do filme. O discreto roteiro de Ken Hixon, porém, toca apenas superficialmente em algumas questões interessantes que McLary coloca, como o dilema entre o dever profissional de um tira e o amor que este pai tem pelo filho, a busca de redenção em uma trajetória sufocada pela culpa e também os mistérios que envolvem as possíveis intercorrências genéticas - personalidades violentas de uma geração para outra dentro da mesma família.
Marcado pela fatalidade e por paradoxos, o argumento de ''O Último Suspeito'' marca a odisséia da família La Marca. Vincent (Robert De Niro) é um detetive de homicídios que construiu sólida carreira, apesar do peso de uma tragédia familiar: o pai condenado à morte e executado pelo sequestro de um garoto. Além disso, ele tem ainda no passivo um casamento malconduzido e afinal fracassado, culminando com o abandono do filho Joey (James Franco), agora um drogado irrecuperável. As coisas se complicam quando o filho aparece como possível assassino de um traficante e de um companheiro de polícia de seu pai (George Dzundza).
Potencial dramático o filme oferece com frequência. O problema é que o todo se ressente de acúmulo de dilemas morais, de excesso de maniqueísmo e de didatismo, embora o resultado final seja bem mais estimulante do que a maioria dos thrillers supostamente modernos que Hollywood ofereceu na última década. Outro fator que pesa contra é a excessiva estilização formal, quando o que o filme pede é simplesmente o não esteticismo, vale dizer, uma narrativa clássica, quase que obrigatoriamente antiquada.
O elenco, por sua vez, segura e amarra com decisão uma série de pontas frouxas. De Niro entrega uma interpretação matizada como não se via há anos, perdido que andou nos descaminhos da comédia caricatural (''A Máfia no Divã'', ''Showtime''). Agora ele demonstra por inteiro sua capacidade de tornar crível qualquer herói trágico. Frances McDormand, que faz a vizinha quarentona que mantém com Vincent uma difícil relação amorosa, está cada vez melhor, e com toda certeza seu imenso talento tem sido sistematicamente boicotado pela comunidade hollywoodiana.


