CINEMA/ESTRÉIA
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha2
Depois da overdose de títulos norte-americanos na esteira do Oscar, a boa notícia do fim do mês é a volta de um filme brasileiro ao circuitão. Em lançamento em todo o Brasil a partir deste final de semana, Bossa Nova (hoje em pré-estréia em Londrina e a partir de amanhã também em Curitiba e Maringá) é o 14º longa-metragem da bem-sucedida carreira hoje globalizada de Bruno Barreto. Exibido hors-concours no encerramento do 50º Festival de Berlim, o filme é definido por quem já viu como uma deliciosa e saudosista comédia romântica. Inteiramente filmado no Rio, Bossa Nova é dedicado a Tom Jobim e François Truffaut, que teriam inspirado o cineasta. Outra influência que pode ser detectada, segundo Bruno, é da comédias de Howard Hawks. Se ele não traiu o espírito dessas fontes, o público pode comprar o ingresso tranquilamente.
De autoria de Arnaldo Jabor, e posteriomente reescrito pelo próprio Bruno, por Leopoldo Serran (Dona Flor e Seus Dois Maridos), um especialista em adaptações de obras literárias para o cinema, o roteiro de Bossa Nova acabou tendo um último tratamento de Alexandre Machado e Fernanda Young. Baseado no romance Senhorita Simpson, de Sergio SantAnn, é a história de Mary Ann (Amy Irving) , uma americana que fica viúva de um piloto brasileiro. Professora de inglês em uma rede de escolas e dando aulas particulares, Mary Ann tem vários amigos entre seus alunos. Ela acaba se apaixonando por Pedro Paulo (Antonio Fagundes), posto em disponibilidade pela mulher Tânia (Débora Bloch), agora muito mais interessada pelo professor de tai-chi-chuan. Ainda no elenco estão Drica Moraes, Alexandre Borges, Giovanna Antonelli, Alberto de Mendoza e o norte-americano Stephen Tobolowsky .
Nas palavras do próprio Bruno Barreto, o filme é uma desavergonhada declaração de amor ao Rio. Um Rio que não existe, verossímil mas não realista. É uma saudade que sinto, não de morar no Brasil mas no Rio, uma coisa de carioca. Por isso classifico Bossa Nova como um projeto meio metro acima do chão. Para ele, o filme inaugura a fase solar de sua carreira, uma espécie de abertura para o bom humor depois de uma fase de filmes que ele classifica de para baixo, sobre o lado escuro do ser humano. Curiosamente, é desta fase seu melhor trabalho como diretor, Atos de Amor, com a mulher Amy e Dennis Hopper.
De olhos na tela e ouvidos na trilha. Quem assina a música, evidente, é Tom Jobim, homenageado especial no filme ao lado do Rio de Janeiro. Quem se encarregou dos novos arranjos do desfile de hits imortais do maestro Antonio Carlos Brasileiro foi o músico Elmir Deodato. A preocupação de Bruno: alguém que não violentasse trabalho tão delicado. Mas uma canção inédita e especialmente composta por Deodato ao melhor estilo Jobim: é Suddenly, tema da personagem de Amy Irving na voz de Carol Rogers.
O filme custou US$ 5,2 milhões (cerca de 9 milhões de reais) e foi inteiramente bancado pela Sony Classic Pictures. Além de um orçamento generoso se comparado aos habituais padrões esquálidos da produção brasileira, uma cláusula contratual garantiu a Bruno Barreto o corte final do produto. Prerrogativa rara, quando estrangeiros trabalham com estúdios norte-americanos.





