Os melhores e mais qualificados ''thrillers'' psicológicos formam um grupo muito pequeno e muito seleto. São argumentos lapidados que trabalham temores do subconsciente, somente exteriorizados em momentos de vulnerabilidade, abstraindo-se aí qualquer excesso de ação física. A esta privilegiada galeria de títulos pertence ''Refém de Uma Vida'', estreando hoje em circuito nacional (veja a programação de cinema na página 2). Metade trama de sequestro, metade drama conjugal, o filme dá as costas à crispação emocional e ao maniqueísmo típicos de outras produções com premissa semelhante (desaparecimento, sequestro, recompensa, etc) para oferecer uma reflexão séria sobre os desajustes e atritos que o tempo provoca nas relações afetivas, familiares e profissionais.
Em Pittsburgh, Wayne Hayes (Robert Redford) é empresário de enorme sucesso no ramo de aluguel e venda de carros. Self-made man, aparentemente vive existência acomodada e burguesa ao lado da paciente e elegante Eillen (Helen Mirren), a leal companheira de décadas, e dos filhos. É a encarnação do ideal do sonho americano, aquele movido à ambição. Naquela que parece ser uma manhã qualquer desta fábula americana, Wayne pára o carro para o tipo errado. O nome é Arnold Mack (Willem Dafoe), alguém neurotizado pela desilusão. Alguém a engrossar as estatísticas do desemprego, do sonho tornado pesadelo. Um perdedor que perdeu um trabalho de 17 anos e agora vive por conta de mulher e sogra produtivas. Não é um assassino serial e muito menos um delinquente. É um dos muitos trabalhadores deixados à margem das vitórias econômicas (se é que existem) da globalização. Mas está muito ressentido, está armado e o mais curioso: não apenas quer o dinheiro de Wayne como também, de maneira patética, sua amizade ou ao menos seu respeito.
Assim, Wayne agora é cativo de Arnold. E a narrativa então se bifurca, em linhas aparentemente paralelas. Enquanto sequestrado e sequestrador percorrem a pé a trilha de num bosque, a família vive o drama indagando sobre as possíveis causas, aqui incluído um segredo que Eillen há muito julgava superado - o adultério de Wayne. Posto dessa maneira, ''The Clearing'' - o ambíguo, metafórico e ótimo título original oferece alternativas como esclarecimento, clareira (a do bosque) ou compensação (de cheques) - é estruturado como um thriller pós moderno.
Entre as muitas virtudes não hollywoodianas presentes neste drama, em primeiro lugar está a austeridade da direção do estreante holandês Pieter Jan Brugge quando empunha o implacável bisturi psicológico que abre incisões profundas nos personagens. Depois, consequência da virtude anterior, a hábil dosagem dramática, impraticável quando se pensa no cinema comercial contemporâneo. E finalmente, a possibilidade de reencontrar Robert Redford em seu território por excelência - é seu primeiro filme independente em décadas, embora há muito tempo ele promova a vertente ''indie'' no Sundance Festival. A seu lado, um Willem Dafoe fazendo o vilão matizado, sem os excessos de personagens recentes. E, claro, esta que é uma melhores atrizes vivas, Helen Mirren, cujos silêncios e olhares imprimem peso adulto a este filme absorvente, melancólico, astuto e dolorosamente humano.

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