CINEMA/ESTRÉIA - Zumbis na esteira do consumo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 23 de abril de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Grandes filmes de horror em falta no mercado, convenhamos são sempre veículos para pesadelos da cultura de massa vide os clássicos ''sociais'' como ''Drácula'' e ''Frankenstein'' do início dos anos 1930, auge da Grande Depressão. Trazem a reboque um inquietante sentido de identificação que inspira simultaneamente histeria e risos. E alívio, em certa medida. ''Madrugada dos Mortos'', em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2), não alcança status de grande filme, mas oferece no centro de seu argumento uma ácida metáfora, nem muito complicada nem muito sutil, mas sempre alerta em sua esquisita, pueril e óbvia maneira de adentrar o inconsciente que tal a epidemia de zumbis identificados com o 11 de setembro, Bin Laden & Al Qaeda?
Com sua horda de mortos-vivos em fúria e apetite crescentes, e os poucos humanos remanescentes escondidos num shopping center abandonado, ''Dawn of the Dead'' traz implícito, no mínimo, um curioso comentário sobre a natureza da cultura do consumo e sobre a guerra suja que bate à porta. Dos americanos, que cutucaram os zumbis com vara curta.
Ana (Sarah Poley), bela enfermeira, um dia descobre que uma praga de mortos-vivos está exterminando a civilização antropófagos, os zumbis aumentam em número a cada nova mordida em gente viva. Tão logo perde seu parceiro vitimado pela epidemia, a garota vaga pelas ruas até encontrar Kenneth (Ving Rhames), estóico policial que vem sobrevivendo à nova situação com a ajuda de uma escopeta. Logo os dois recrutam outros fugitivos e seguem em busca de refúgio em um shopping agora inativo, aparentemente seguro e dotado de provisões. Ali cercados, os humanos sobreviventes, além de garantir a própria vida, têm que preservar a própria humanidade.
Também fotógrafo e publicitário, o diretor estreante Zack Snyder soube manter intocadas a metáfora e a sátira social que fizeram a fama cult do diretor George A. Romero, que fez história primeiro em 1968 com ''A Noite dos Mortos- Vivos'' e dez anos mais tarde com ''Zumbi, Despertar dos Mortos''. Os zumbis funcionam nesta refilmagem como consumidores que se atropelam às cegas, sempre devorando e nunca se saciando, padecendo espiritualmente da eterna fome. Quando os humanos ainda não contaminados buscam segurança no shopping, esperava-se alguma ironia. Em vez disso, o local é apresentado sem ambiguidades, como um santuário. Grande sacada. E ainda mais saborosa quando se sabe que o filme, neste momento em amplo lançamento globalizado, está sendo visto predominantemente em complexos exibidores de shoppings.
Mas a melhor tirada ainda pertence ao comediante Bob Hope, que morreu ano passado quase aos 100 anos. Conservador mas inteligente, ele saiu-se com esta pérola de antologia quando a moda zumbi tomou de assalto a indústria hollywoodiana: ''Quem são esses seres que arrastam os pés, têm os olhos esbugalhados e balbuciam incoerências? Zumbis? Republicanos ?''


