CINEMA/ESTRÉIA - Uma revigorante comédia de idéias
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de março de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Pode ser apenas coincidência ou amável descuido momentâneo do exibidor. O fato, concreto, consistente e animador, é que de algumas semanas para cá a programação das salas do Shopping Royal Plaza vem mantendo um surpreendente nível ou desnível, dependendo do ângulo em que se observe de qualidade, com uma oferta de títulos que em épocas mais felizes estariam na tela do Ouro Verde, hoje falecida. Pode-se argumentar que as condições, digamos, físicas dos espaços em questão deixam um tanto a desejar, principalmente se cotejadas com os templos de última geração do concorrente Catuaí. Mas agora, como o que está no centro das atenções cinéfilas é este novo desfile de filmes em que o que conta mesmo são os enredos (leia-se idéias) e não as alegorias e adereços (escute-se efeitos), pode-se perfeitamente relevar os inconvenientes e partir enquanto é tempo para a descoberta de algumas preciosidades. Como este ''As Invasões Bárbaras'' (veja a programação de cinema nesta página).
Rotular este filme canadense de sequela seria cometer uma terrível injustiça, tal o estágio de depreciação a que chegou a definição. Mas de verdade é apenas isso mesmo o que existe no novo e premiado filme de Dennys Arcand (melhor roteiro e atriz em Cannes-2003 e Oscar de melhor filme estrangeiro, há três semanas), que retoma, dezessete anos depois, vários personagens de ''O Declínio do Império Americano''. Quem se lembra daqueles professores de história que falavam sem parar e com enorme sagacidade, acima de tudo sobre sexo, mas também de política e da vida em geral? Pois eles estão de volta em ''Les Invasions Barbares'', agora no eclipse de suas existências o título é alusão ao atentado de 11 de setembro e à guerra que invadiu o próprio território do ''Império'', isto é, a nação norte-americana. É nada além de uma alusão, e talvez não muito exata, já que o próprio Arcand, na coletiva que deu em Cannes, ano passado, depois da première mundial do filme, se dizia muito seguro sobre qual era a Roma atual, mas não estava muito certo sobre quem são os novos bárbaros.
Liberal e provocador, Denys Arcand deu visibilidade internacional ao cinema de Quebéc, fazendo circular filmes no circuito mundial de primeira linha, inclusive com o aval do grande público. Um de seus títulos de maior sucesso é ''O Declínio do Império Americano'', de 1986, retrato vivo de uma geração. Revendo hoje o filme, não se pode negar, entre muitas outras virtudes, o seu tom profético. Era então, e continua a ser, uma dura crítica ao ''american way of life'', expressando nos diálogos intelectualizados e cínicos o mal-estar causado pelos descaminhos sociais, culturais e afetivos trilhados pela sociedade americana. O filme vaticinava um outro desastre iminente, mais ou menos como aquele que deu a largada para a queda do império romano.
Decorridos dezessete anos, Arcand reuniu novamente seis de seus principais personagens e retomou aquela narrativa. Mas a este reencontro adicionou uma nova geração, jovens deste início de milênio. Nesta retomada, Rémy, um daqueles heróis dos anos 1980, está hospitalizado. Divorciado, cinquentão, está terminal por conta de um câncer. A ex-mulher convoca o filho já adulto e distante física e afetivamente. Por sua vez, este reagrupa os velhos e melhores amigos de quase duas décadas, além de parentes e ex-amantes de Rémy. Juntos, em clima ao mesmo tempo de réquiem e celebração, evocam os melhores momentos de suas vidas e promovem um inventário social, cultural e existencial.
Neste tempo de invasões bárbaras, é hora de saber o que foi feito do hedonismo, do bom humor, da amizade, do desejo. O que se perdeu e o que restou. Para esta avaliação que equilibra risos e lágrimas, dor e alegria, Arcand desacelerou o cinismo do filme anterior e revigorou a irreverência. Segundo a ótica de um roteiro escrito com maestria, o declínio do império americano não só continua como também aumenta em razão de novas investidas da barbárie. O filme é inteligente, ácido, emocionante, generoso. Embora alguém possa achá-lo pessimista, é de longe, e paralelamente, a mais corrosiva análise sobre países e instituições diversas, e a mais bem sucedida celebração do espírito que o cinema fez em muitos anos.
O que importa em ''As Invasões Bárbaras'' não é a invenção de soluções visuais, mas o peso das palavras. E o que surpreende é o admirável equilíbrio obtido por Arcand entre humor, inteligência e sentimento: com personagens tão calidamente humanos como estes que retrata (e que magníficos intérpretes!)
nada mais resta se não sentir-se afetivamente comprometido. Por isso não tem importância que a sensibilidade do espectador seja manipulada, e bem: é para gerar uma emoção genuína, e deixá-lo pensando.


