Ativistas a favor dos direitos animais invadem um laboratório científico em Londres com a intenção de soltar alguns macacos utilizados como cobaias em testes de perigosa pesquisa. Com isso, e sem querer, acabam liberando um vírus devastador que contagia, via sanguínea, a todos os humanos. Decorridos 28 dias (''28 Days Later'', no original), um jovem internado em hospital desperta do coma sem saber o que aconteceu. Londres e a Inglaterra estão desertas. Enquanto ele caminha por Piccadilly Circus e pela ponte de Westminster sem cruzar com um único ser vivo, o jovem percebe que o fim dos tempos pode ter chegado à ilha.
Este é o hiperrealista, semidocumental e inquietante começo de ''Extermínio'', em exibição a partir de hoje em circuito nacional (veja a programação de cinema na página 2). Com certeza e desde já um dos títulos mais fascinantes da temporada 2003, o filme marca o recente retorno do inglês Danny Boyle ao sempre libertário território europeu que permitiu a ele o criativo ''Trainspotting'', antes de pagar pesado tributo (o elegante eufemismo para ''mico'') assinando em Hollywood os frustrados ''A Ilha'' e ''Por Uma Vida Menos Ordinária''.
Na trilha da literatura de assinada por George Stewart, J.G Ballard, Brian Aldiss e Roger Zelazny, e sobretudo assimilando sem contra-indicações o inevitável Richard Matheson e sua obra-prima ''I Am a Legend'' (no cinema em 1971 como ''A Última Esperança da Terra'', adaptação decente do televisivo Boris Sagal), o diretor Danny Boyle vai bem mais além, em propósitos artísticos e conceituais, dos limites mais modestos de George A. Romero em seu ''A Noite dos Mortos Vivos''. O que a princípio parece uma revisita a cada um dos tópicos da ficção científica vertente pós-apocalíptica se transforma, no roteiro esperto de Boyle e Alex Garland (autor da novela original), em proposta a meio caminho entre o thriller e o horror, mas também em reflexão analítica sobre os nichos mais recônditos da natureza humana. Sobre a solidão, sobre os meandros menos visíveis da política e do militarismo.
A narrativa, enquanto temática, está centrada no comportamento de pessoas cotidianas, banais, anônimas mas aqui sobreviventes enquadrados em situação-limite, a todo momento intimidados por uma violência a eles estranha. Boyle se atreve a explicar o comportamento vampiresco-infeccioso através da psicologia. Os protagonistas, atormentados em sua solidão e entregues às mãos ''salvadoras'' do exército, acabam descobrindo o verdadeiro monstro no próprio ser humano, na crescente demência instalada naquelas pessoas adestradas para matar. Ainda a notar, metaforicamente, que em mais de uma sequência o vírus é comparado ao consumismo desenfreado especialmente na cena de abertura com a propaganda da Benetton e na sequência do minimercado.
Mas ''Extermínio'' teria quando muito a metade de sua eficácia, não fosse originalmente filmado com câmeras de vídeo digital, capazes de flagrar a terrível Londres desolada do filme. A forma parece diretamente saída das sessões do movimento Dogma dinamarquês. Aqui, o VD trabalha a favor de uma montagem diligente, ambos imprimindo um ritmo capaz de obter uma sugestiva e astuta sensação de urgência, como se Doyle quisesse passar um caráter documental em que as cenas de ação contivessem um tom ultrarrealista. Há uma textura densa e quase irrespirável criando uma atmosfera expressionista, como a reforçar uma particular visão de irrealidade na movimentação dos infectados. Boyle não esconde sua dívida artística para com Van Gogh, e respeitosamente faz o pagamento apresentando sua história em uma gama obscura e sombria, colocando assim em evidencia a intenção de expressar a miséria e os sofrimentos da humanidade. Uma espécie de signo do expressionismo com significado de adulterado estado de tormento, que não hesita em usar cores que se abrem em perspectivas alucinatórias.
O filme, como se nota, estende seu campo de influências e é um must para artistas plásticos e fotógrafos E também para a garotada que, de súbito, foi invadida pelas novas câmeras digitais leves, precisas e dinâmicas. As preciosas lições de Boyle estão postas: é correr e aproveitar.

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