CINEMA/ESTRÉIA - Um filme para encantar o seu mundo
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de julho de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Não é segredo que, quando ''A Viagem de Chihiro'' saiu de Berlim em fevereiro último com o Urso de Ouro, prêmio máximo do festival, muitos jornalistas credenciados ao evento não tinham visto o filme. Eles simplesmente haviam subestimado o potencial da realização de Hayao Miyazaki, exatamente porque a animação, como a fantasia, o terror e até a ficção científica continuam engessados como gêneros menores - ainda que tenham oferecido indiscutíveis obras-primas. O Oscar da categoria deste ano, na segunda maior surpresa saída das urnas da Academia (a primeira, claro, foi a decisão de premiar ''Tiros em Columbine'' como melhor documentário), deixou de mãos abanando a Fox, a Disney e a DreamWorks e acabou referendando a decisão da mostra alemã. Bem feito para Cannes, que em 2001, ao não oferecer um destaque qualquer para ''Shrek'', perdeu a oportunidade de sair na frente e entrar para a história das premiações.
Aos 62 anos, Hayao Myiazaki é uma rara unanimidade. Entre animadores de todas as partes é mestre indiscutível, por uma única e mais que suficiente razão: é um completo esteta, em forma e conteúdo, alguém que sabiamente - não fosse filho da cultura oriental - sabe formatar as idéias na medida exata de suas preocupações humanistas. Veterano na arte do desenho animado ''made in Japan'', ou a ''japanimation'', como a vertente nipônica tornou-se conhecida no Ocidente, Myiazaki é dono de inesgotável capacidade criativa demonstrada sempre com genialidade ao longo de três décadas, período em que o cineasta construiu um universo próprio e imediatamente identificável. Em ''A Viagem de Chihiro'', que o público brasileiro tem o privilégio de assistir agora em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2), o criador de outras preciosidades como ''Porco Rosso'', ''Meu Vizinho Totoro'' e ''A Princesa Mononoke'' acrescenta à sua filmografia mais uma ambiciosa (e outra vez consumada) e fascinante versão de uma história que, com algumas variantes, vem contando há muitos anos.
Com a imaginação tão ilimitada quanto a de um Lewis Carrol e com a mesmas irrestritas liberdades oníricas de um ''Mágico de Oz'', ''A Viagem de Chihiro'' está muito além, em complexidade e ambiguidade, da média dos desenhos animados disponíveis. A heroína-título é uma garota de 10 anos, curiosa, impulsiva e simpática. Sem ser ao menos ouvida, ela está de mudança com sua típica família contemporânea. De carro, pai, mãe e filha acabam errando o caminho e chegam, assim como Alice, a um ''outro lado'', uma misteriosa estação, parecida com um parque de diversões abandonado. Ali, para começar, os pais são tentados pela gula e acabam vítimas de um feitiço, sendo transformados em porcos. Chihiro tenta salvá-los, mas se encontra às voltas com 8 milhões de deuses, bruxas, fantasmas, bebês gigantes, monstros, criaturas estranhas dos mais diversos tamanhos e dragões voadores. Contra estes seres, a menina, agora sozinha e aterrorizada, vive aventuras que acontecem nos lugares mais inusitados, como casas de banho ou trens que viajam na água. É preciso sobreviver, resgatar os pais e voltar para casa. Felizmente sem freios, a mente prodigiosa de Myiazaki proporciona um nunca acabar de cenas surpreendentes, num constante desafio à capacidade do espectador em assimilar assombros e maravilhas.
O universo de Myiazaki é a garotada entre 6 e 12 anos, nem menos nem mais. É essa meninada que, apanhada no contrapé do cotidiano adulto consumista repleto de fixações profissionais e comerciais, deve se superar como pode diante das dificuldades e imprevistos impostos pela vida. Para o cineasta, o bem-estar, seja no Japão ou onde mais, fica sempre muito próximo da natureza, do mundo espiritual e, por que não, da companhia de estranhíssimas criaturas que povoam o sempre rico imaginário. Com forte intensidade, valores como amor, amizade, solidariedade e fidelidade, e sentimentos como medo e coragem, estão presentes nos 125 minutos que dura esta fantástica jornada. Por estas características de estatura moral, e também pelo perfil épico e lírico, é possível - e sem não exagerado - encontrar paralelos no cinema dos maestros japoneses Kenji Mizogushi e Yasujiro Ozu, além de ecos chaplinianos.
Artesão no sentido puro da palavra, Myiazaki trafega sem nenhum pudor na contra-mão do novo cinema animado gerado por computador. Quase tudo é ''hand made'', com irrepreensível qualidade pictórica e extrema atenção aos detalhes. Um cult, imediato e definitivo.


