CINEMA/ESTRÉIA - Um épico arenoso
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de abril de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
''Mar de Fogo'', a partir de hoje em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2) é o subtítulo que acompanha em telas brasileiras o épico ''Hidalgo'', título original que não se refere a nenhum excêntrico cavaleiro errante enfrentando moinhos de vento, como o ''engenhoso fidalgo'' Dom Quixote de la Mancha.
Quem está por trás desse batismo é um cavalo mustangue, considerada raça de qualidade inferior. Em fins do século 19, mais precisamente em 1890, o equino Hidalgo e seu dono Frank T. Hopkins (Viggo Mortensen) são chamados para participar de uma lendária corrida, a mais longa de que se tem notícia e que realmente existiu, com 4 mil e 800 quilômetros de areia, suor e lágrimas. A disputa consistia em cruzar todos os anos aquela imensa extensão do inóspito deserto da Arábia. E segundo a tradição, o desafio somente era superado pelos melhores puro-sangue árabes e seus jóqueis beduínos.
Hopkins, ex-vaqueiro e ex-soldado do exército americano, foi considerado um dos mais competentes cavaleiros do Oeste. Mas agora está em má fase, atormentado pela consciência, bebendo e fazendo demonstrações no circo ambulante de Búfalo Bill depois de participar da ''faxina étnica'' empreendida pelo General Custer contra as nações indígenas - ou você acha que por trás dessa definição recente para massacres ao redor do mundo (Ruanda, Kosovo) não existe toda uma histórica tradição de extermínio entre povos e raças? Assim, o convite do riquíssimo xeque árabe Riyad (Omar Sharif) vem em boa hora, apesar de trazer embutidos ameaças e perigos à sobrevivência do herói americano. O final, claro, todos já devem ter intuído.
''Mar de Fogo'' apresenta uma narrativa épica de corte clássico, recheada de ação, aventura e elementos de melodrama, já que Hopkins se apaixona pela filha de seu mecenas, a bela Jazira (Zuleikha Robinson) - não confundir com a rede de tevê Al-Jazira, que os americanos tentam, mas não conseguem seduzir e conquistar. O filme é entretenimento-pipoca de típica configuração Disney, mais ou menos à maneira Spielberg e Lucas, com as indefectíveis sequências espetaculares (locações marroquinas e americanas), eletrizantes cenas de corrida (cinco cavalos-dublê fizeram as vezes de Hidalgo) e os recursos tradicionais de envolvimento emocional das platéias, ao enfatizar o clima de redenção e superação pessoal que envolve o personagem, afinal saindo do embate em aura de dignidade e nobreza.
Como obviamente nada sai de Hollywood para correr mundo sem o ostensivo ou subliminar aval ideológico da Casa Branca, este é o exemplar estratégico da política de boa vizinhança com o mundo árabe, mas com o mundo árabe que interessa ao Tio Sam - não por acaso o personagem de Sharif chama-se Riyad, a capital da Arábia Saudita, aliada dos EUA. E o cavalo mustangue, valente mas inferior enquanto pedigree, sai da América para desafiar (e vencer) os melhores exemplares árabes montados por gente perigosa com ordens até para matar os intrusos. O interessante ator Viggo Mortensen, também poeta e artista plástico que vem se posicionando publicamente contra políticas internacionais do governo Bush, desta vez pegou bonde errado ao avalizar um ''herói'' politicamente subserviente.
E o diretor Joe Johnston, ex-perito em efeitos especiais, é aquele profissional de carreira que vai subindo disciplinadamente dentro da empresa, aquele a quem os estúdios podem encomendar sem susto os projetos mais diversos, desde ''Querida, Encolhi as Crianças'' até ''Jurassic Park 3'', passando por ''Jumanji''. Contanto que sejam divertimentos comerciais capazes de contrabandear sorrateiramente um discurso conveniente. É por isso que deve ser considerado um ''deslize'' em sua carreira o inspirado ''Céu de Outubro'', de 1999.


