CINEMA/ESTRÉIA - Um drama de inquietante beleza
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quinta-feira, 24 de agosto de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Polonês de nascimento, mas uma das principais referências do renovado cinema inglês, Pawel Pawlikowski ratifica em ''Meu Verão de Amor'' o poder de sugestão de seu cinema, sua capacidade de construir climas ao mesmo tempo belos, enigmáticos e inquietantes, assim como uma sensibilidade incomum para penetrar em profundidade nos seus personagens a estréia dele, ''The Last Resort'', está comercialmente inédito no Brasil,
Neste drama que estréia hoje na cidade (veja a programação de cinema na página 2), o diretor trata de uma relação delicada. Primeiro de curiosidade e admiração, em seguida afetiva, mais tarde sexual e finalmente com viés manipulador e obsessivo daí a se tornar doentia é apenas um passo curto. De um lado a bela e cínica Mona (Nathalie Press), jovem classe alta, de boa formação e aspirações intelectuais. Do outro, Tamsin (Emily Blunt), sem maiores atrativos, de origem popular e com carências múltiplas.
A convivência entre ambas vai aos poucos adquirindo uma dimensão trágica, tanto social e religiosa como política. Uma dimensão que não se via desde outros filmes com argumentos similares, como ''Almas Gêmeas'', de Peter Jackson, ''Mulheres Diabólicas'', de Claude Chabrol ou no cinema da Argentina Lucrecia Martel ''O Pântano'' e ''A Menina Santa''.
''Meu Amor de Verão'' parte como um simples filme de iniciação sexual adolescente com ênfase no conto de fadas, mas logo avança para um grau de complexidade em que convivem segredos e mentiras mais recônditos, matéria prima do lado mais escuro das protagonistas.
Alguns poderão achar certos dilemas e paradoxos um tanto manipulados, a partir da idéia central de que os opostos se atraem. Outros se sentirão incomodados com a franqueza da aproximação sexual ou pelo aspecto místico há no argumento fanáticos religiosos que promovem uma cruzada moralizadora.
Mas inclusive com estas possíveis prevenções, é impossível não se deixar seduzir pela tessitura visual e narrativa que Pawlikowski constrói a partir do aporte fundamental das duas decisivas intérpretes, até este filme (2004) uma dupla desconhecida, mas já alçada ao estrelato juvenil britânico.
É admirável este universo de paisagens estivais do norte da Inglaterra, que combina elegância e sensibilidade para retratar a bela fugacidade de um verão. Um verão assombrado pelo erotismo de corpos femininos, pelas consequências que pais ausentes causam em seus filhos, por todas as inseguranças, as fantasias, as decepções e as tensões contidas em profunda crise adolescente.


