CINEMA/ESTRÉIA - Túnel do tempo congestionado
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 09 de fevereiro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Um amontoado de problemas, durante as filmagens de ''Linha do Tempo'', ajudou a transformar esta produção num dos grandes fracassos do ano passado. E já prevendo o resultado catastrófico, o diretor Richard Donner, um dos bons realizadores do cinema americano lá pelos idos de 1970 (''A Profecia'', ''Superman''), andou adiantando à mídia que não via a hora de sair desse malogrado túnel do tempo para retomar dois de seus títulos mais consistentes da década de 1980, ''Os Goonies'' e ''Máquina Mortífera''. Qualquer um desses projetos teria sido preferível a este equivocado objeto de descarte sumário.
É tudo uma pena, porque a novela homônima de Michael Crichton (''Timeline'') é fonte de dados e detalhes históricos que oferece boas idéias, e com certeza serviria de interessante argumento, infelizmente adaptado aqui com rara falta de talento. Embora as viagens cronológicas não sejam nenhuma novidade para o cinema, é sempre potencialmente fascinante, desde que com a maior verossimilhança possível, a chegada de curiosos do século 21 a uma época tão cruel e desumanizada como a Europa do século 14 contrastando com a idílica visão que alguns personagens do filme guardam em seu romântico imaginário.
''Linha do Tempo'', em circuito brasileiro (veja a programação de cinema nesta página), segue os passos de um grupo de arqueólogos que é enviado à França medieval. Acontece que uma estranha empresa descobriu uma improvisada maneira de viajar no tempo, mas tão somente para aquele período e aquele lugar. O renomado professor Johnston (Billy Connolly) é convidado para dar assessoria ao projeto. Ele vai, mas fica literalmente preso no passado. A tal companhia decide então enviar os alunos para tentar resgatar o mestre. Problemas, é claro. O tempo de permanência no passado é curto somente seis horas para resolver tudo. É preciso agilizar...o tempo (ironia que o roteiro nem toma conhecimento) para então viabilizar a volta, ou o pessoal do resgate também ficará preso.
O que a princípio se mostra uma idéia saborosa aos poucos vai se convertendo em produção superficial a serviço de uma trama tosca, com um amontoado de personagens rasos e extraviados pelos escaninhos do tempo ou seria vice-versa? Há alguns momentos menos sofríveis, perto do final, quando se reproduz sem efeitos especiais uma batalha com catapultas e arco e flecha, sequência que fortalece a impressão geral de que a direção de arte é a única credencial honesta do filme. Não há como destacar um elenco basicamente entediado, já que não conta com personagens bem escritos e definidos.


