CINEMA/ESTRÉIA - Sob medida para quem não vai sambar
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
É tradição entre exibidores, embora já não faça mais muito sentido. No Carnaval, a prudência mercadológica sempre sugeriu que os melhores trunfos de bilheteria fossem poupados para dias de alegada normalidade, vale dizer, cessada a mini-temporada desses excessos datados. Diz a lenda que neste período muitos cinéfilos perdem momentaneamente seu ímpeto espectador e desaparecem dos cinemas para reaparecer na avenida ou nos salões, travestidos de foliões. A alternativa para platéias vazias seria então desovar títulos desconhecidos, filmes sem maior interesse para o grande publico, material apenas para preencher calendário.
É provável que seja este o motivo que levou o Royal Plaza, em Londrina, a programar a estréia de ''Em Nome de Deus'' para hoje (veja a programação de cinema na página 2), cobrindo sem ambições os feriados a seguir. Mas com toda a certeza sem querer, neste caso o exibidor acertou em cheio no que não viu, embora mirando no que viu. O filme, que em absoluto nada tem de descartável, é tudo o que piedosos em retiro espiritual pediram (ou não) como estímulo à reflexão sobre temas como céu e inferno, crime e castigo, soberbos e humilhados, abusivos e abusados, tudo como bem define o exato e precioso (aleluia!) título brasileiro: ''Em Nome de Deus''.
Ao tempo em que o último ''asilo'' ou ''casa de correção'' ou convento da ordem irlandesa das Irmãs de Madalena foi fechado em 1996 (a congregação foi instituída no século 19 e teve casas também na Escócia e na Inglaterra), estima-se que cerca de 30 mil mulheres viveram e trabalharam nessas grandes lavanderias católicas ao longo de um século de barbárie ''abençoada''. Muitas delas eram mães solteiras ou vítimas de estupro que tinham ''envergonhado'' suas famílias. Outras eram apenas adolescentes rebeldes que falavam ou se exibiam demais. Para purgar seus ''pecados'', essas mulheres foram forçadas a trabalhar como escravas, tiveram negado o acesso ao mundo exterior ou foram regularmente espancadas ou humilhadas pelas freiras. Em ''The Magdalene Sisters'', o escritor, ator e diretor escocês Peter Mullans segue o calvário de quatro dessas personagens reais durante os anos 1960 para criar um drama inesquecível e angustiante, inteiramente baseado em fatos reais reconstituídos a partir de minuciosos depoimentos de testemunhas.
Em 1964, três jovens iniciam uma indefinida permanência no asilo das Irmãs de Madalena (o nome da ordem se refere a Maria de Magdala ou Maria Madalena, a prostituta redimida por Cristo e que expiou seus pecados na miséria e na auto-flagelação), em Dublin, dirigido com requintes de tirania pela Irmã Bridget (Geraldine McEwan). Margareth (Anne Marie Duff) é a adolescente inteligente e reservada que foi estuprada por um primo bêbado numa festa de casamento - a sequência abre o filme de maneira estupenda. Patrícia (Dorothy Duffy) é a mãe solteira em depressão. E Bernadette (Nora-Jane Noone) é a garota órfã de gênio inflamado que ousou flertar com rapazes. Logo de saída restringidas em autonomia e com a dignidade ultrajada pela Irmã Bridget, o trio se aproxima de Crispina (Eillen Welch), profundamente religiosa e retardada mental, vítima de reiterados abusos sexuais cometidos pelo padre que assiste o asilo.
O dia a dia de privações e toda sorte de táticas repressivas que afetam a saúde física e espiritual dessas ''pecadoras'', é o que interessa ao roteirista-diretor Mullans, ele mesmo um católico-socialista. Na coletiva no Festival de Veneza em 2002, onde ''Em Nome de Deus'' levou o Leão de Ouro para melhor filme e causou profunda irritação na mídia católica, Mullans mexeu fundo na ferida: ''Fico imaginando sobre a mínima diferença entre uma certa Igreja Católica e os fundamentalistas do Talibã, e como são sempre as mulheres, com sua juventude, a causar tanto medo ao poder religioso. Que séria ameaça elas representam para a teocracia?''
A barbárie institucional, com a cumplicidade das famílias beatas e bem-pensantes, e a consequente e imensa sombra projetada sobre a civilizadíssima cultura ocidental. Para denunciar isso foi necessário um escocês corajoso e visionário como Peter Mullans, alguém que já havia cutucado a Igreja em ''Órfãos'', sua promissora estréia na direção e também premiado em Veneza, em 1998. É tudo verdade, em ''The Magdalene Sisters''. Esta história do inferno na terra, em nome da caridade e da piedade, é muito mais do que um exercício de denuncia com requintes anticlericais. Não mostra as internas como vítimas piedosas nem as freiras como monstros de maldade. Elas são o exemplo de como a natureza humana é embotada e deformada pelo fanatismo, pela ignorância e pela frustração. Não se trata de um filme para enfurecer o Vaticano e a beata do bairro. É um ''filme de prisão'' que vale acima de tudo como testemunho histórico de uma (i) lógica de repressão alicerçada em fatores religiosos.
Outras estréias de cinema serão enfocadas nas edições de sábado e domingo na Folha 2.
Hoje, excepcionalmente deixamos de publicar a coluna ''Só Blues'', de Kiko Jozzolino.


