CINEMA/ESTRÉIA - 'Roubando vidas', tempo e dinheiro
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de abril de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
Maquinar uma trama policial com elementos de suspense e que funcione como proposta original. Este o desafio de qualquer estreante ou veterano, e isto é também o que nenhum espectador habituado ao gênero ignora. Desafio, a propósito, que derrubou Jon Bokenkamp, o homem que adaptou para o cinema a novela ''Roubando Vidas'', de Michael Pye. O resultado do tropeço está em lançamento hoje em Londrina (veja a programação de cinema na página 2).
O tipicamente atípico assassino serial seria o protagonista do ''thriller'' de D. J. Caruso (é o nome mesmo do diretor migrado da televisão, nenhum dublê de dijei), não fosse por Angelina Jolie à frente do elenco. A herdeira de Jon Voight, aqui mais light, mas ainda imbatível em caras e lábios, é Illeana Scott, agente secreta do FBI enviada para ajudar colegas de Montreal como clichê de ocasião, eles fazem piadas sobre os seios dela. A moça é capaz de se deitar numa cova aberta não que a façanha a mantenha em forma como Lara Croft, mas porque só assim pode descobrir como age o criminoso. Que é alguém que toma a identidade de suas vítimas, desfigurando os rostos e cortando as mãos. Trata-se de uma especialidade complicada, já que o autor deve encontrar vítimas bem parecidas com ele para substituí-las em vidas.
Ao final, desinteressado de seu próprio processo patológico há uma tragédia familiar na origem do mal , ele vai matando quem encontra pela frente, sem que se expliquem os motivos. Mas a brava Angelina está a postos. Ela tudo sabe, tudo intui, tudo analisa. E tudo resolve, mesmo que o espectador mais ladino já tenha dados os arremates na trama há um bom tempo.
Um elenco atraente (Etan Hawke, Kiefer Sutherland, Olivier Martinez, Tcheky Karyo, Gena Rowlands), uma câmera ágil, uma certa habilidade da direção: nenhum desses elementos, a princípio favoráveis, podem suprir a debilidade básica, a sustentação falha de um roteiro mal costurado. Apoiado em lógica incoerente, ''Roubando Vidas'' se equilibra debilmente em mínimo cota de suspense. O início é promissor, o meio é precário, o terço final é lamentável. E uma lágrima pela grande e outrora deusa Gena Rowlands, agora consumida e desfigurada pelo botox.


