Cinema/Estréia - Romeu e Julieta nos Bálcãs
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de dezembro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
O diretor bósnio Emir Kusturica, 51, é ele próprio um personagem. Filma freneticamente, como poucos, e ainda se permite realizar turnês mundiais com o grupo musical que ajudou a criar, a No Smoking Orchestra. Também é fanático por futebol, e neste momento está concluindo o documentário ''Maradona''.
Conversei com ele duas vezes, ano passado em Cannes por conta justamente de ''A Vida é Um Milagre'', em competição no festival. E há três meses em Veneza, onde foi exibido ''hors-concours'' o filme-evento ''Todas as Crianças do Mundo'', com sete histórias sobre a infância, uma delas dirigida por Kusturica.
De ''Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios'' (85) até ''Gato Negro, Gata Branca'', Kusturica (a pronuncia correta é Kusturiça) se caracterizou por filmar com uma paixão que poucos diretores possuem. Um dos cineastas com maior sensibilidade no momento de transformar em imagens suas histórias, ele sempre parte da superficialidade dos grupos humanos para logo penetrar fundo nos elementos mais significativos destes grupos. Com ele, o espectador está sempre entre comédia, drama e sátira social. O burlesco também está invariavelmente próximo. Poesia e humor, de mãos dadas, pairando acima da separação, do drama, da tragédia.
Meio cigano, meio realista mágico, em ''A Vida é Um Milagre'' o cineasta rende seu tributo a Shakespeare, que a julgar por tudo o que se observa na tela bem poderia ter vivido na contemporânea terra conflagrada da ex-Yugoslávia . O filme está a partir de hoje em exibição em Londrina (veja a programação de cinema na página 2).
Uma história de amor improvável, mas não impossível, ambientada na Bósnia em 1992, véspera da mais sangrenta guerra do final do século 20. A história do pacato, ingênuo e sonhador engenheiro sérvio Luka, enviado de Belgrado para construir uma linha férrea em local destinado à exploração do turismo. Ele é casado com a depressiva e excêntrica cantora lírica Jadranka. O filho do casal, Milos, é louco por futebol assim como Kusturica, hoje e sempre. Estoura a guerra civil. Jadranka foge com um musico húngaro, Milos é recrutado e logo feito prisioneiro no campo de batalha. Os militares sérvios confiam a um desesperançado Luka a guarda da bela refém muçulmana Sabaha. Eles se apaixonam. A vida, afinal, é bela. E vivê-la naquele contexto caótico é de fato um milagre.
O resultado desta trama é este filme belo, enfático, romanesco, mágico, excessivo às vezes além da conta. Por um lado, Kusturica mostra uma modernidade que se insinua no meio do grupamento humano que, no entanto, vive firmemente baseado em suas tradições. As novas idéias parecem passar ao largo, sem que ninguém compreenda as importantes mudanças que podem provocar. E por outro lado, há esta história de amor plena de magia e emoção, este encontro entre um sérvio e uma muçulmana, entre duas etnias/religiões que se converte em luz de esperança nesses tempos obscuros.
Agora, para aqueles não habituados ao trabalho do diretor e que vão encontrar toda a riqueza que há no filme, é preciso que se diga que há uma maneira muito peculiar de se narrar esta história. Um estilo...Kusturica. Um estímulo constante, uma comoção permanente, uma excitação estranhamente redundante. Há o caos sensorial, vital, tonificante, vigoroso. A hiperatividade de Kusturica é assombrosa quando ele mistura vidas de bósnios com vidas de sérvios com vidas de burros, cães, gatos, ratos, ursos, galinhas, patos, numa mescla limítrofe entre surrealismo e hiperrealismo. Os bichos têm função quase familiar na filmografia do diretor. E tudo isso ao som de arrepiante trilha sonora, uma musica ensandecida e irresistível.


