Cinema/Estréia - Referências ordinárias
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de setembro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Qualquer situação merece um filme. Desde o perigo causado por um meteorito que ameaça se chocar com a Terra até as vicissitudes de alguém que perdeu o gato e o procura por todo o bairro. O cinema nunca tem por que ser maior que a vida. Por isso, mesmo um filme que se passa exclusivamente durante uma festinha de aniversário tem que funcionar. O problema é que sempre, maior ou menor, tem que existir sempre uma história para contar. Que pode ser contada de diversas maneiras, e é aqui que falha ''A Liga Extraordinária'', em exibição a partir de hoje em circuito nacional (veja a programação de cinema na página 2).
É uma das mais extravagantes e anacrônicas fantasias já aportadas à tela, uma miscelânea derivada dos ''comics'' de Alan Moore e Kevin O'Neill. É precisamente a integração de um heterogêneo grupo de elite o ponto de interesse que dá a partida ao filme, e lhe dá um certo charme inicial. Aqui não há um herói, mas vários, embora não sejam estritamente heróis (e nem cavalheiros, como anuncia o título original The League of Extraordinary Gentlemen). O que os une não é a condição de defensores da lei, mas os antecedentes literários comuns: são todos personagens famosos, dotados de extraordinárias habilidades e saídos de literatura criada durante o terço final do século 19. E, além disso, se comportam muito mais atendendo a ambições pessoais do que a um sincero compromisso com a justiça ou com o bem comum, embora tenham sido convocados pela Coroa britânica para, de maneira altruísta, enfrentar ''The Phantom'', um pérfido vilão montado nas últimas novidades tecnológicas daquele período e capaz de manobrar as nações em direção a uma guerra mundial.
À frente do grupo está Alain Quaterman, o caçador e aventureiro de ''As Minas do Rei Salomão'' e outras histórias na África criadas por H. Rider Haggard. Apesar de tempo de serviço e idade para a aposentadoria, ainda mantém boa cabeça e vigor físico para estimulantes refregas quem mais se não Sean Connery, perfil adequado e além disso produtor executivo do filme? A ele juntam-se o ''eterno'' Dorian Gray, de Oscar Wilde, o destemido Capitão Nemo de Julio Verne, os inseparáveis Dr. Jekyll e Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, o irmão de Sherlock Holmes, Mycroft Holmes, de Conan Doyle, e um certo homem invisível inspirado obviamente em H.G. Wells. A sempre bem-vinda e indispensável participação feminina é, pasmem, a vampirizada Mina, a obsessão do Drácula criado por Bram Stoker. Finalmente, para não decepcionar as letras ianques, surge um certo Tom Sawyer, provavelmente aquele mesmo de Mark Twain, mas aqui um marmanjo travestido de espião.
Se tudo a princípio parece muito promissor, logo a decepção dá as caras, e a dose de imaginação derivada das fontes originais se reduz apenas à escolha dos personagens. A ''gótica'' aventura se limita à repetição de situações em ritmo vertiginoso, com rara preocupação pela coesão e pelo andamento da trama. ''A Liga Extraordinária'' é um filme de aventuras quando muito apenas razoável como entretenimento, que se deixará desfrutar mais até do que se poderia esperar, desde que o espectador rapidamente se esqueça de seus pontos de referência, seja dos ''comics'' ou das obras literárias. Para isso, é necessário ainda se deixar levar por aquele turbilhão de efeitos especiais, por aquela espetaculosidade previsível, barulhenta e sem surpresas que manipula todo e qualquer filme de ação que chega hoje ao mercado.
O que parece fatal neste filme em grande parte frustrado, escrito por James Dale Robinson e dirigido por Stephen Norrington, é que os mitos literários foram retorcidos e infantilizados para que o público que não os conheciam tivesse acesso mais fácil a eles. Isto significou trair a própria natureza daqueles personagens em benefício da discutível visão que a Hollywood de hoje tem do gênero de aventuras.


