CINEMA/ESTRÉIA - Quase obra-prima de puro fascínio dark
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de outubro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Faltavam dois dias para o final do Festival de Veneza, no mês passado, quando A Noiva Cadáver foi apresentado fora de concurso. Foi tudo uma apoteose a sessão para a imprensa, o concorridíssimo tapete vermelho antes da exibição de gala para convidados e público, o corre-corre no assédio ao diretor, somente comparável ao cerco implacável a George Clooney. E tudo plenamente justificado: o filme, que estréia hoje no Brasil (veja a programação de cinema na página 2), é uma deslumbrante fábula negra em animação feita com massinha e fotografada em stop motion, quadro a quadro como Wallace & Gromit, ainda em exibição na cidade veja box nesta página. E quem dirige é o sempre fascinante Tim Burton, um mestre na criação de universos poéticos ultradark.
Não é nada fácil situar este filme. Por um lado está construído por imagens magníficas e observações impregnadas do melhor e mais original humor negro. Mas em alguns poucos momentos a narrativa se equilibra perigosamente, em parte porque o tema da necrofilia mais ingênua, menos aterrorizante, não é nada comum e por isso difícil de sustentar; e em parte porque nem todas as canções compostas pelo eterno parceiro de Burton, Danny Elfman, mantêm o mesmo nível de inspiração, deixando a narrativa com um ritmo ligeiramente mais frouxo até mais ou menos a metade.
A premissa do argumento, baseado numa fábula judeu-russa, é muito divertida. No centro da trama está o desventurado Victor (voz e até mesmo o look de Johnny Depp felizmente a cópia em Londrina é original com legendas), um jovem prestes a se casar com a inocente Victoria (Emily Watson), em união arranjada pelos pais dela (Joanna Lumley e Albert Finney) e dele (Tracey Ullman e Paul Whitehouse), estes novos ricos vendedores de peixe e praticantes de alpinismo social.
Tímido e atribulado, nosso anti-herói Victor não é exatamente o genro que os futuros sogros esperavam. Não bastasse a situação delicada, surge em cena outro possível pretendente para Victoria, o distinto Lord Barkis (Richard E. Grant). Mas o destino intervém neste quadro. Na véspera do casamento, quando Victor vai sozinho a um bosque ensaiar sua participação nas bodas, ele coloca o anel naquilo que pensa ser um galho seco e então faz o juramento de amor. Mas na verdade é o dedo de uma noiva morta (Helena Bonham Carter) que apenas aguardava o dia em que lhe dedicariam aquele ritual.
Victor agora é o companheiro da noiva-cadáver. A ação sai do mundo dos seres vivos esquemáticos e calculistas, representado por cores irremediavelmente mortas e muito, mas muito chato, e ingressa no universo dos mortos, com cores pouco mais vivas e vistosas, e muito, mas muito mais alegre, em permanente estado de festa como em Finados no México este contraponto é apenas um entre os diversos achados de estéticos e de humor que Burton e seu co-diretor Mike Johnson injetaram em Corpse Bride. Somente o número musical produzido por Elfman para esta seqüência já justificaria uma ida ao cinema.
A literatura de Dickens, Poe e Shakespeare, este com seu épico romântico Romeu e Julieta; o pioneiro designer de monstros Ray Harryhausen; o universo horrorífico do expert italiano Mario Bava; a homenagem a atores ícones do terror cinematográfico como Bela Lugosi, Peter Lorre e Vincent Price, e o visual gótico da produtora inglesa Hammer há um acúmulo de citações a se eleger prioritariamente ou não, de acordo com a maior ou menor quantidade de informações e referências prévias. Mas neste sentido nada aqui é excessivo a ponto de comprometer a imensa capacidade poética, sugestiva e onírica entranhada nestas imagens. Para aqueles que já desfrutam há tempos da inesgotável sofisticação do Burton, A Noiva-Cadáver é mais um momento para saudá-lo de novo nas salas, que nesta ocasião deverão estar ornamentadas com arranjos mistos: flor de laranjeira e crisântemos...


