Poderosa em seu ''pret-a-porter'' criado sob medida para liquidar inimigos e embasbacar a galera unisex - não necessariamente nesta ordem -, a heroína principalmente dos videogames está de volta às telas nas voluptuosas formas da ginasta-arqueóloga Angelina Jolie, agora livre, lesa e solta depois do rompimento com Billy Bob Thornton. ''Lara Croft Tomb Raider - A Origem da Vida'' estréia hoje em todo o país (veja a programação de cinema na página 2) padecendo da mesma fragilidade do ''Lara Croft'' lançado em 2001. Mas enquanto este rendeu gordas bilheterias mundo afora, a retomada agora em lançamento no Brasil vem se arrastando nas bilheterias americanas, sem sinais de reação.
Cantada eternamente em verso e prosa, citada pela alta e baixa literatura sem maiores critérios seletivos, a mitológica Caixa de Pandora sempre fascinou a porção fantasiosa do ser humano. Segundo o argumento de ''Lara Croft - A Origem da Vida'', a misteriosa relíquia que, se aberta, poderia explicar a origem da vida, mas também poderia disseminar doenças e exterminar todos a humanidade, estaria escondida numa remota região da África. Aparece um cientista, bilionário, o bioquímico obcecado e super-vilão britânico, Dr. Jonathan Reiss (Ciaran Hinds), que pretende colocar as mãos no cobiçado item arqueológico e dominar o mundo através de infecções generalizadas, apesar do Nobel curricular.
É claro que a partir daí a aventureira Lara Croft (Jolie) assume todo o plano de correção de rota, fazendo o possível (pouco) e o impossível (quase todo o filme) para impedir tal gesto tresloucado. Para ajudar nesta missão ela conta com a ajuda de Terry Sheridan (Gerard Butler), um ex-namorado que foi preso acusado de trair a Inglaterra(!). Se tudo der certo, o rapaz ganha o perdão e uma nova identidade, além de uns chamegos da protagonista. Mas antes disso a dupla vai enfrentar uma gangue chinesa do barulho liderada pelo pérfido Chen Lo (Simon Yam).
Super-armas, marcialidades diversas, tensão sexual extraída a fórceps, locações exóticas como Shangai e Hong Kong (ou seriam cenários de faz-de-conta?). Grande parte do material inserido nesta trama parece saído de um brechó onde se liquidam idéias de segunda mão, como se os roteiristas (dois ou três, creio) tivessem arrematado sub-tramas de filmes de James Bond. A banalidade dos diálogos seria até suportável, não fossem irritantes em sua displasia criativa - ''Realmente, Lara, você me desaponta'', diz à moça o inimigo. E até as sequências de ação (leia-se lutas diversas) parecem viciadas por uma modelagem padrão que é inoculada entre os mais diversos blockbusters, desta e de temporadas passadas.
Diante de ''Lara Croft Tomb Raider - The Cradle of Life'' o espectador tem tempo suficiente para avaliar e concluir em que proporção os filmes chamados de ação foram deteriorados nos últimos anos. Especialmente quando se compara este com outros que são inspirações óbvias da presente franquia: toda a série Indiana Jones, e antepassados mais remotos, como ''As Minas do Rei Salomão'' e ''She''.
O holandês Jan de Bont, que fez satisfatório uso da adrenalina das platéias com o primeiro ''Velocidade Máxima'' e ''Twister'', faz de conta que não está nem aí, deixando a cargo da heroína a condução da narrativa. E Angelina Jolie acaba reinando absoluta em seu prateado e revelador traje de mergulho.
O filme, afinal, oferece aquela que talvez seja a mais justa autocrítica desses tempos hollywoodianos tão sombrios. Olhando a singela caixa que contém males suficientes para liquidar todos os seres humanos, o gênio do mal, Dr. Reiss, observa: ''Todo este poder acondicionado num recipiente tão ordinário...''

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