Delírios de um sonhador: se algum dia a Academia de Hollywood instituir um Oscar especial destinado ao cineasta mais inquieto, socialmente comprometido, politicamente empenhado contra injustiças, arbitrariedades, tiranias e totalitarismos, à direita ou à esquerda, o nome a lembrar imediatamente será o do grego Constantin Costa-Gavras, com o inglês Ken Loach logo atrás. Pois está na hora de checar se o Costa-Gavras daquele muito eficaz cinema-denúncia dos anos 1970 (''Z'', ''Estado de Sítio'', ''A Confissão'', ''Seção Especial de Justiça'') ainda está em forma, diante da estréia hoje em Londrina de seu título mais recente, ''O Corte'' (veja a programação de cinema na página 2).
Já devem ser maioria os cidadãos dispostos a se identificar com a carreira criminosa do protagonista deste impactante libelo. Não deve estar longe o dia em que a sacrossanta flexibilidade trabalhista acabe obrigando os aspirantes a um bom cargo a liquidar seus competidores mais diretos. Isto, em essência, é o que narra este thriller de denúncia, inspirado em novela do norte-americano Donald Westlake. Não é de admirar que Costa-Gavras tenha se entusiasmado por esta narrativa sobre paradoxos sociais, pretexto para colocar em evidência a crueldade do sistema e a espiral de loucura que pode gerar o capitalismo selvagem.
Com acidez e sem meias-tintas, ''O Corte'' constrói um relato amoral e com ilações que afinal de contas o espectador está bem disposto a ouvir. Temos a história de Bruno (José Garcia) jovem profissional altamente qualificado, experiente na indústria de papel, inclusive com certo número de ações da empresa. Mas uma dessas tais reestruturações o coloca na rua. Depois de dois anos desempregado e de muitas absurdas e improdutivas entrevistas, a resposta de Bruno é simples e direta: para ter emprego, ele tratará de eliminar todos os potenciais competidores ao posto para o qual se considera mais apto. Um serial killer de competidores, inclusive com grandes chances de impunidade.
A observação moral de que se vale Costa-Gavras acerca da realidade do mundo do trabalho felizmente está muito distante dos discursos ocos, e muito mais próxima da análise dos fatores em jogo. O resultado é um filme de enorme lucidez que alterna momentos de suspense crescente com episódios carregados de humor negro, numa alquimia que não resulta desfavorável ao conjunto.
Está, portanto, com prazo de validade em dia a inconfundível atitude beligerante de Costa-Gavras, agora diante deste novo rosto da injustiça. E ainda que suas intenções resultem mais óbvias, não se pode esquecer que muitas vezes é na reiteração da obviedade que se obtém os melhores resultados.

mockup