As coisas, ao sabor do tempo. Em ''Rambo III'', realizado há 20 anos, a missão era no Afeganistão, onde ele ajudava os mujahedins (agora inimigos mortais da pátria ianque) a lutar contra os russos - esta ironia do tabuleiro de xadrez político mundial está no argumento de ''Jogos de Guerra'', também em lançamento na cidade. Para situar a ação desta quarta fatura da saga, Sylvester Stallone, que escreveu o roteiro, dirigiu e interpretou o filme, elegeu a explosiva fronteira entre a Tailândia e a Birmânia.
Em ''Rambo IV'', em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 2), o semi-aposentado personagem agora quase zen vive lá mesmo na Tailândia, numa pequena barca, onde se dedica à captura e venda de cobras. A vida tranquila muda quando um grupo de missionários o contrata como segurança e guia até a fronteira com a Birmania, lugar onde devem encontrar alguns refugiados. O cenário é de guerra civil entre birmaneses e karenis, etnia local que luta por reaver direitos suprimidos. Os vilões aqui são os impiedosos militares birmaneses, que terminam por sequestrar os missionários.
É a oportunidade que Rambo esperava para retornar à selva e fazer novamente, com ardor expeditivo, aquilo que executa melhor, armado de flechas, metralhadoras, bombas. A idéia é não deixar sequer um mau vivo. E para isso o universo de Rambo não admite meias tintas. Os bons não podem posar de pacíficos. Nada de diplomacia, porque senão chegam os maus, com suas caras apopléticas, e mandam a paz bater em outra freguesia. Os maus são na verdade ainda piores, cometem todo tipo de atrocidades e não respeitam nem os direitos humanos mais elementares.
Por conta desta ''casa de mãe joana'', Rambo saca seus próprios códigos morais, seus métodos de via rápida à base de destruição e morte para libertar o pessoal. No filme, o enfrentamento básico entre Bem e Mal é acentuado - embora assim nem tão bonzinho-demagogo, nem tão executor indiscriminado-maniqueísta. Rambo continua o mercenário niilista e cético que abomina injustiças e muita conversa, alguém que não pode negar sua índole de máquina de matar. Para isso, mantém religiosamente seu coquetel diário de hemoglobina adicionado à testosterona.
Não mais de dez minutos são necessários para se intuir que o argumento não vai além da rotina de sempre, com este personagem eternamente mal-humorado, confinado a espaços de selva densos, úmidos, claustrofóbicos. Diálogos rarefeitos, personagens secundários desinteressantes, ação precipitada, câmara lenta pontual, cenas de selvageria extrema.
Mas não há como negar à produção um elevado nível técnico, um apurado sentido de narrativa visual, uma enxuta, cirúrgica montagem - mesmo que a qualidade destes meios não justifique o fim em nenhum momento. Se o ator regrediu (alguma vez progrediu ?) ao longo das ultimas décadas, o diretor aprendeu bem seu ofício e, a exemplo do ''Rocky'' derradeiro, dá seu recado aqui com segurança. É o máximo que se pode dizer não exatamente a favor do filme, mas como observação isenta.

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