O destemido documentarista Michael Moore, que esta semana recebeu dezenas de ameaças de morte em seu site por conta da Palma de Ouro que levou por ''Fahrenheit 9/11'', parece não estar sozinho na cruzada que afronta George W. Bush. Aos poucos, parece que um cinema opositor, munido de certas temáticas espinhosas, pretende evitar a reeleição do presidente em novembro. Nesta corrente, embora em vertente ficcional e nem tão politicamente engajada, está Roland Emmerich, alemão radicado em Hollywood. Ele está de volta com seu cinema-catástrofe. E de novo focalizando a devastação em Nova Iorque, megalópole-metáfora da civilização humana e a preferida de nove entre dez demolidores de mentira (a partir de Orson Welles em ''A Guerra dos Mundos'') e de verdade (a partir de Osama Ben Laden, a partir de 11 de setembro de 2001).
Emmerich transformou a demolição de símbolos em uma frutífera carreira que já vem de longe, desde a destruição da Casa Branca por sinistros alienígenas em ''Independence Day'' até a imagem de corretores da bolsa de Wall Street esmagados por um gigantesco dinossauro em ''Godzilla''. Agora, o diretor decidiu (a idéia original e o roteiro também são dele) não somente aniquilar Nova Iorque como ainda todo o hemisfério norte, neste ''O Dia Depois de Amanhã'', que chega hoje simultaneamente às telas norte-americanas e a um respeitável circuito de países (veja a programação de cinema na
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Não sem algum surpreendente tempero polêmico apesar da aparência iconoclasta, ele tem sido cineasta funcional ao status quo hollywoodiano , que afinal serve à perfeição aos estratégicos propósitos de marketing: o ''The New York Times'' informou, no dia 14, que o governo proibiu aos cientistas da NASA fazer qualquer comentário sobre o assunto mudança de clima. A comunidade científica envolvida com o tema viu o filme em sessões especiais, fez ouvido surdo e então falou à vontade. Apesar de classificar o argumento do filme como pura fantasia, quase ninguém colocou em dúvida a clara mensagem de advertência contida em ''The Day After Tomorrow''.
No filme, Dennis Quaid é um cientista especializado em clima que, sabendo o que vai acontecer, conta tudo às autoridades. Mas ninguém se incomoda, todos consideram o aviso alarmista, e assim transcorre a primeira hora do filme: furacões, tornados, inundações, terremotos e tempestades de neve se encarregam de varrer a face dos Estados Unidos e de boa parte do planeta. É o começo de uma nova era glacial, 10 mil anos depois da última, com muitas das maiores cidades do planeta arrasadas. Tudo, evidentemente, posto em cena com a mais requintada bateria de trucagens que um mega-orçamento pode proporcionar, números aí perto dos U$ 200 milhões.
Emmerich, mesmo sem aprofundar nada (e de resto filme-catástrofe que se preza como gênero não discute, executa), fez um filme muito curto e muito grosso, seguindo uma espécie de linha pontilhada entre realidade e ficção. Realidade: os Estados Unidos ainda não ratificaram o protocolo de Kyoto, aquele protocolo da ONU ainda hoje vetado por Bush e que estabelece que o país deve reduzir suas emissões de dióxido de carbono em 30 por cento até 2012, sob pena de primeiro derreter de calor e em seguida sucumbir ao frio glacial. Os ambientalistas vão curtir esta inferência. Ficção: no filme, quem ignora os avisos do cientista é o vice-presidente (o presidente morreu), aliás a cara do vice de verdade, Dick Cheney. E Emmerich acelerou e acentuou o poder de gelo do processo vingador da natureza. Realidade e ficção: mesmo que a mídia oficial americana faça o possível para reforçar a idéia de que ''O Dia Depois de Amanhã'' é só um filme, não se pode menosprezar o fato concreto de que Hollywood constitui enorme influência na percepção que o público tem das coisas do mundo.
Sem dúvida, o espetáculo visual se apóia em catastrófica eficácia e supera em muito o roteiro plano, sem dramaturgia, apegado exclusivamente ao suporte familiar o cientista deve sobreviver e tentar salvar o filho, isolado na Biblioteca Pública de Nova Iorque. Há ironias um tanto óbvias mas saborosas, como aquela que remete os americanos sobreviventes a entrarem clandestinamente no México; ou um e outro discurso político raso mas igualmente desfrutáveis. A ''subversão'' de Emmerich, na verdade, é de um relativismo paradoxal a toda prova. A maior prova? A ênfase no papel da natureza como a maior vilã da história.

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