CINEMA/ESTRÉIA - O presente, em algum lugar do passado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de janeiro de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Das mãos do diretor Tony Scott e do produtor Jerry Bruckheimer, velhos parceiros de andanças testosterônicas, chega hoje às telas do país o drama ''Déjà Vu'' (veja a programação de cinema nesta página), argumento mirabolante a meio caminho entre realidade e ficção científica.
E apesar de toda a mídia ter celebrado o Globo de Ouro e aberto generosos espaços para o grande vencedor do prêmio na última segunda-feira, ainda não será desta vez que ''Babel'' entra no circuito local, em que pese o lançamento hoje em circuito nacional. E quando vier é bom ficar em alerta total, porque aqui a carreira do maravilhoso filme de Alejandro IÀárritu será, quando muito, duas discretas semanas, a última em regime de confinamento em sala menor e horário impróprio para o consumo do público ao qual o filme se destina preferencialmente. Mais ou menos aquilo que ocorreu com ''O Jardineiro Fiel'' - e com outros títulos de boa índole -, lançado na cidade em 14 de outubro de 2005 sem qualquer apreço por parte do exibidor.
Quase todas as pessoas experimentaram algum dia esta sensação inexplicável de déjà vu, esta espécie de flash da memória que ocorre quando se conhece alguém e se sente que a pessoa já tinha sido vista antes. Ou se reconhece um lugar no qual teoricamente nunca se esteve. Mas o que aconteceria se estas sensações fossem advertências enviadas do passado como pistas para o futuro ?
Em torno desta pergunta, deste artifício utilizado a título de argumento é que se debate o investigador Doug Carlin (Denzel Washington), às voltas com um problemático episódio que começa quando um ferry de Nova Orleans, lotado de marinheiros e passageiros, explode por conta de um atentado terrorista, matando dezenas e ferindo outras tantas.
Doug chega ao local da tragédia. Astucioso, logo descobre vários indícios que o convencem que por trás do incidente está um autor sádico. Paciente, vai aos poucos armando o quebra-cabeças que custou tantas vidas. Mas quando descobre que um moderno sistema para conhecer o passado em uma dimensão paralela pode ser a solução para o caso, ele se vê atropelado por uma sucessão de elementos que indicam que a explosão da bomba ainda está por acontecer. Seu déjà vu o está traindo, e é preciso agir muito rapidamente para impedir que o passado se converta no presente.
Esta possibilidade de transitar fisicamente pelo passado e lá intervir para evitar um massacre no presente - algo assim como o pré-crime de ''Minority Report'' - resulta tão engenhosa quando complicada, sugestiva e absurda. O roteiro segue permanentemente as peripécias de Doug, que está a ponto de conseguir impedir o que ainda não ocorreu. Mas depois de algumas sequências iniciais de inegável solidez dramática, ''Déjà Vu'' vai afrouxando em seu intento de esclarecer o imbróglio no qual transitam o romance, algumas traições e um suspense até conduzido com certa eficiência, numa espécie de patchwork onde se entrecruzam ressonâncias de clássicos da ficção científica como ''A Máquina do Tempo'', ou clássicos da fórmula mistério-romance como ''Laura'' ou o próprio cult ''Em Algum Lugar do Passado'', além de um ou outro título hitchcockiano.
O diretor Tony Scott, irmão bem mais agitado e bem menos prendado de Rydley Scott, é sem dúvida um virtuoso da ação e do uso dos efeitos especiais, mas pouco dotado para controlar precisamente o tempo e a duração. Assim, acaba estendendo excessivamente um produto que não passa de puro entretenimento, por mais que jogue perversamente com a inevitável paranóia pós 11/9. Em sua incontinência, em sua incapacidade de ir ao que interessa, Scott acaba tornando confuso o que de início havia conseguido explicar com clareza. Além de abandonar em parte a absorvente investigação dedutiva em favor da atração romântica entre Doug e uma das vítimas, interpretada pela atraente Paula Patton.
Filmado em cores gélidas e secas, às quais se acrescentam incômodos zooms e constantes vibrações de câmera, ''Déjà Vu'' vai cativar o público disposto a passar um par de horas entre explosões, carros que voam pelos ares e uma trama novelesca no melhor estilo Michael Crichton, à qual deve-se prestar muita atenção para que não ninguém se perca no labirinto de interrogações. Apesar do tamanho da inverossimilhança, deve-se ressaltar a desenvoltura com que são oferecidas as explicações científicas sobre o tema dos universos paralelos.
Está na hora de Denzel Washington pensar em necessária correção de curso. Seus personagens andam à beira da mesmice e da saturação, com aquela imagem de amável-bonzinho de sempre, já um tanto anódina. Anda interpretando a sim mesmo, e daí à caricatura o caminho é curto.


