CINEMA/ESTRÉIA - O nome de Philip Dick citado em vão
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sexta-feira, 26 de março de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Transposição cinematográfica de uma novela de Philip K.Dick, autor audacioso, inteligente, cult e decididamente em voga entre os cineastas americanos, ''O Pagamento'' atesta a futilidade da carreira americana do chinês John Woo, autor de uma delirante e superestimada carreira com filmes de ação em Hong Kong nos anos 1980. O filme está em exibição agora também em Londrina (confira a programação de cinema na página 2).
Ainda mais fragilizado pela presença do calamitoso Ben Affleck, vivendo outro capítulo de sua pane de carisma, ''O Pagamento'' tenta equilibrar três vertentes numa mesma balança, oscilando entre a trama de ficção científica, o thriller científico e o filme de ação. Hesitante, vai fundo na confusão dos gêneros, e o que acaba mesmo sobressaindo são as cenas de ação pura, espécie de selo de garantia da inalterada capacidade de Woo como coreógrafo deste ofício. Neste sentido, e apenas neste sentido, ''Paycheck'' não tem de que se envergonhar, mesmo que o cardápio oferecido ao espectador seja tão somente mais do mesmo. Mas o débito para com o universo pessimista de Philip Dick, além de óbvio, é bem considerável.
Ao contrário de ''Blade Runner'' (Ridley Scott, 1981), ''Vingador do Futuro'' (Paul Verhoeven, 1989) e ''Minority Report'' (Steven Spielberg, 2002), satisfatórias reflexões sobre alguns dos temas preferidos de Dick, ''O Pagamento'' não passa de dinheiro miúdo.
Em 2007, Michael Jennings é engenheiro brilhante, um perito em informática (é para acreditar, apesar de Affleck) que se dedica a tomar emprestadas boas idéias de outras companhias e, contratado por uma rival, deixá-las ainda melhor. Espécie de ladrão industrial, ele sobrevive sem culpas ou remorsos. Por que? Simples e fácil: quando termina uma tarefa e entrega o produto, apagam sua memória daquilo que acaba de fazer. Assim ele vive tranquilo, bem pago, sem arrependimentos e sem se lembrar de meses de sua vida.
Um dia recebe a chamada proposta irrecusável: um cheque de muitos dígitos por uma tarefa agora com duração mais longa, três anos. O problema é que, realizado o trabalho, Michael descobre que, além de não receber o dinheiro, querem matá-lo. E que alguém enviou a ele um envelope com vinte elementos diversos (um isqueiro, um spray, um anel, uma lente, etc, etc) que devem ser decifrados como saída da perseguição.
Fascinante como premissa, o argumento vai perdendo eficácia em razão da pobreza, previsibilidade e artificialidade do roteiro. O filme não funciona nem como exemplar de ficção científica capaz de propor enigmas e conceitos subversivos, nem como thriller científico destinado a sustentar a tensão e o interesse do público.
Na visão de Philip Dick, o controle da mente humana é o pesadelo por excelência do futuro. O enfoque sobre realidade virtual, espionagem industrial entre corporações, efeitos nefastos do desenfreado desenvolvimento tecnológico e a conflituosa relação entre andróides e homens são apenas alguns dos outros temas que fizeram da literatura do autor parada obrigatória para leitores, fãs ou não do gênero. John Woo, ao bombardear o espectador com explicações didáticas e resoluções tranquilizadoras, empobreceu a trama e a infantilizou, esvaziando qualquer expectativa de desfrutar o que de melhor Philip Dick tem a oferecer: a reflexão filosófica em torno da memória e das novidades tecnológicas.


