Aqui está o filme que Steven Spielberg deveria ter feito no lugar de ''Inteligência Artificial'', uma extravagância insatisfatoriamente resolvida. ''Minority Report - A Nova Lei'', em lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2), é uma incursão futurista ousada e estimulante que, ao contrário do filme anterior, combina satisfatoriamente o frio sentido de bizarra alienação de Kubrick com a própria urgência e perícia de Spielberg na manipulação de táticas de suspense. Baseada em conto de Philip K. Dick, este é um ''thriller noir'' de antecipação à moda ôBlade Runner" sobre um policial interpretado por um amadurecido Tom Cruise - de novo o dedo providencial de Stanley Kubrick.
Corre o ano 2054. Em Washington D.C. não há mais assassinatos. John Anderton (Cruise) é o chefe muito eficiente da divisão de elite de uma corporação de segurança privada que opera na capital. O diretor do serviço (Max Von Sidow, excelente) tem planos de nacionalizar as operações, desde que a burocracia (Colin Farrell) não interfira. O método que permite esta conquista social, isto é, um cotidiano sem crimes, inclui um trio de sensitivos, seres muitos especiais que podem ''ver'' os delitos por antecipação, e assim evitá-los. Esses três ''psíquicos'' com privilegiada visão do futuro são os Precogs (precognitivos), e o sistema é o Pre-Crime. Quando os Precogs Agatha (Christie ? ), Art (Conan Doyle?) e Dash (Hammett?), submersos numa solução líquida, têm suas visões, estas são transferidas a imagens computadorizadas por um software, e então o chefe Anderton, com movimentos quase que de um maestro à frente da orquestra, examina tudo numa tela para encontrar as pistas sobre o futuro crime.
Mas Anderton resolve desenterrar o passado e investigar um velho homicídio. É quando as imagens dos Precogs o apontam como o assassino de uma pessoa que ele nunca viu. A partir daí, ele terá somente 36 horas para tentar descobrir a verdade e a identidade do autor. É quando Anderton/Cruise se assemelha ao Dr. Kimble/Harrison Ford de ''O Fugitivo''.
O herói vive ainda um conflito pessoal desde que perdeu um filho e a mulher o abandonou. Leva uma vida solitária. E como qualquer bom personagem hitchcockiano, é agora acusado injustamente, devendo provar que é o homem errado. Descobrir o verdadeiro culpado é uma forma de fazer tudo voltar a normalidade. E neste caso o fim justifica os meios, e há inclusive fortes motivações para mostrar Tom Cruise como drogadito.
Steven Spielberg tomou este roteiro baseado em história de 31 páginas do arqui-utilizado e magnífico visionário Philip K. Dick (''Blade Runner'', ''O Vingador do Futuro''), e partiu para uma guinada quase insólita em sua carreira: aqui ele abandona o perfil emocional e até respinga sangue na tela. Mas a estrutura narrativa é a habitual, incluindo mergulhos no passado e projeções futuras, sempre muito ordenadas e coerentes. Tudo está em ordem - mesmo que o protagonista permaneça em breve desequilíbrio. Aí surge o conflito e o caos, então os mecanismos de resolução são acionados e tudo volta à ordem. Como sempre, reina soberano o cineasta-narrador nato, alguém que conta histórias como poucos. ''Minority Report'' resulta em esplendor visual. E como em todo filme de Spielberg a tecnologia é fundamental, mas sempre se amoldando ao relato de forma natural. E como ninguém na indústria, ele possui talento suficiente para recuperar o sentido lúdico do espectador comum. Neste sentido, o filme oferece detalhes, alguns engenhosos (as aterrorizantes aranhas que procuram olhos para escanear), outros divertidos (a caixinha de cereais).
Sabendo-se que toda boa ficção-científica é de fato uma especulação a respeito de novas tendências sociais e políticas, este ''Minority Report'' é provocante e problemática indagação sobre uma questão crucial para os humanos enquanto reunidos em grupamentos sociais: até que ponto pode avançar uma sociedade para estabelecer limites de segurança que signifiquem sobrevivência da espécie?

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