CINEMA/ESTRÉIA - O estranho caso de 'Edison'
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de fevereiro de 2006
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Só mesmo mercados exibidores de terceiro mundo, com irrestrita capacidade de absorver entulhos que a própria indústria hollywoodiana descarta sem hesitação, são capazes de colocar descaradamente em circuito produtos como este ''Edison'', em lançamento nacional (confira a programação de cinema na página 2). O filme, ruim como poucos, mereceria quando muito uma passada de olhos na sinopse estampada nos jornais. Mas desperta curiosidade e alguma atenção porque, primeiro, foi o título escolhido para encerrar fora de competição o prestigioso (?) Festival de Toronto de 2005; depois, por causa do elenco encabeçado por Morgan Freeman e Kevin Spacey e finalmente pelo quase absoluto e eloquente ineditismo no resto do mundo os próprios americanos se livraram dele bem rapidinho, despachando direto para as locadoras, apesar de seu orçamento de US$ 37 milhões
Filmes como ''Edison'' precisam ser vistos, para que o disparate faça algum sentido. É um desses desastres que terminam sendo extremamente engraçados, embora a intenção não era esta em absoluto. Talvez seu espaço mais condizente fosse uma daquelas antigas e tórridas sessões de drive-in, num extravagante exercício de meta-cinema a caminho da condição de anticult.
Edison não é ninguém. Edison é a cidade onde se passa a ação. Trata-se de um daqueles argumentos que lembram lembranças muito longínquas, muito superficiais, é bom ressaltar e ressalvar os dramas sobre corrupção policial e política estampados em ''Serpico'', ''Chinatown'' ou ''Los Angeles Confidencial''. Cenário em que um pequeno incidente acaba por expor uma enorme quantidade de sujeira envolvendo gente muito poderosa e muito próxima do poder. Mal comparando, alguma coisa mais ou menos parecida com a despretensiosa revelação de Roberto Jefferson e a bola de neve, ainda não contida, que se formou no Brasil a partir daí.
Em poucas palavras: jovem e inexperiente repórter (o pop star Justin Timberlake, sem cantar e sem dançar, só atuando e mal) descobre que um time de violentos super-policiais, depois de limpar a cidade de criminosos, agora goza de status privilegiado que os coloca acima da lei. Quem vai combater ao lado do rapaz é um jornalista veterano e um solitário e íntegro representante da ordem (Morgan Freeman e Kevin Spacey, quem diria!). Este é o quadro geral, esta é apenas parte da extensa coleção de clichês.
O diretor David Burke, até agora somente um aplicado roteirista de séries televisivas, mostra que não mereceu o upgrade. Não é bom contador de histórias ou mesmo sabe trabalhar com a linguagem de cinema, já que demonstra pouco jeito em lidar com ângulos de câmera e nenhuma ambição para deixar a montagem menos vulgar ou menos superficial.
E como tentativa de estudo sobre a prática de jornalismo destemido, a julgar pelos resultados risíveis, provavelmente o pessoal da equipe de ''Edison'' desconheça ''Boa Noite e Boa Sorte'', para ficar apenas com um exemplo bem recente sobre intrépidos repórteres buscando expor o lado podre do poder.


