Os diamantes que você usa nos dedos ou no pescoço podem ser ''de sangue''. O termo ''diamante de sangue'' é usado para caracterizar pedras contrabandeadas em países em guerra, cuja venda é geralmente usada para comprar armas. Este também é o nome do novo filme de Edward Zwick (de ''Tempo de Glória'', ''O Último Samurai''), produção que estréia hoje em todo o País (confira a programação de cinema na página 2).
É um grande filme do diretor americano. A Academia, porém, costuma olhar com desconfiança para produções que colocam astros em prol de causas mundiais sérias, o que pode reduzir seu eventual número de indicações ao Oscar.
O escolhido por Zwick para a missão é Leonardo DiCaprio, que já mostrou seu amadurecimento artístico no recente ''Os Infiltrados''. Aqui, ele prova que merece, no mínimo, uma indicação ao Oscar e todo o ''bafafá'' que vem de brinde.
DiCaprio é um soldado da fortuna e da miséria na Serra Leoa, país africano prestes a sucumbir na guerra civil dos anos 90. Danny Archer, o personagem, transporta diamantes entre a Serra Leoa e um país fronteiriço para abastecer o mercado negro, trocando-os por armas. Ele não se importa que sua função ajude a aniquilar a população local. E há sentido em sua lógica. Quem faz mais mal, o governo ineficiente, os rebeldes que lutam pelo país mas são covardes para governar a baderna, a imprensa que explora uma guerra chocante entre uma notícia de esporte e outra de fofoca, ou os países ricos, que enviam toneladas de comida e ajuda humanitária mas que compram toneladas dessas pedras?
Neste meio, Danny nem parece tão mal assim, mas DiCaprio luta para impedir a redenção de seu personagem até o final, mesmo que essa seja a característica de todos os filmes do diretor - seja no uniforme de soldado da Guerra Civil ou em um quimono. A atuação dele fica ainda melhor ao lado de Djimon Housou (''Terra de Sonhos'', ''Amistad''), um homem que se perde da família na guerra, mas seu destino muda quando ele encontra no garimpo um diamante rosa enorme, que esconde na floresta. Graças ao burburinho, é libertado por Danny que, em troca de ajudá-lo a encontrar a família - especialmente o filho pequeno, capturado e transformado em soldado pelos rebeldes - quer a pedra para ele.
Na outra ponta está a jornalista Maddy Bowen (Jennifer Connelly). Sedenta por um furo, seduz Danny ao mesmo tempo em que amolece sua alma. Apesar da calamidade exótica e distante que é a África vista pelo cinema, é impossível não se emocionar com as crianças metralhando a população local e um senhor dizendo ''espero que ninguém ache petróleo por aqui''. Isso porque, sempre que uma riqueza é descoberta - marfim, ouro, diamante - guerras eclodem e a população morre.
Com a câmera na mão e no meio do caos, o filme rodado em Moçambique mostra que, no comércio bilionário de ''diamantes de sangue'', quem pode fazer a maior diferença é o comprador, ao pedir um certificado de origem nas lojas de luxo de lugares como a Quinta Avenida de Manhattan ou a nossa Oscar Freire de São Paulo. Assim, as pedras que fazem a felicidade de alguns não causarão a morte de muitos.

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