Diante da exuberância do argumento luxuriante de ''Apocalypto'', em exibição no circuito local (veja a programação de cinema na página 2), o espectador é levado a concluir que Mel Gibson teria enormes chances de deixar a Marquês de Sapucaí neste fim de semana coberto de louros e glórias com a alegoria que recheia seu filme. Da mesma forma que os carnavalescos sonham temas mirabolantes que o saudoso humorista Stanislaw Ponte Preta chamou um dia de ''sambas do crioulo doido'' - um mix indigesto de devaneios históricos desfilando no Sambódromo -, Gibson e seu co-roteirista Farhad Safinia soltaram a imaginação e mergulharam fundo na ancestralidade do continente americano. Mais precisamente, naquilo que se supõe ter sido o período de decadência da influente civilização dos Maias, na América pré-colombiana.
A história é simples, até mesmo convencional. Grupo de índios vive em relativa tranquilidade, dedicando-se à caça e aos afazeres do cotidiano. Entre brincadeiras às vezes cruéis, o carinho familiar e a transmissão oral de façanhas ao redor do fogo, eles levam existência entre primitiva e idílica - há aqui uma dívida de Gibson para com o Kevin Costner de ''Dança com Lobos''. Mas a boa vida transforma-se em caos com a chegada de outro grupo guerreiro, que arrasa a aldeia e captura um punhado de robustos varões, mantidos vivos com propósitos desconhecidos. Um destes é Garra de Jaguar (Rudy Youngblood), que fará de tudo para fugir e libertar a mulher grávida (Dalia Hernandez) e o filho (Carlos Emilio Baez) aprisionados numa cova profunda.
Gibson é cineasta poderoso, que ninguém duvide. A prova irrefutável são seus três filmes, o correto drama de estréia, ''O Homem Sem Rosto'', e sobretudo ''Coração Valente'' e ''A Paixão de Cristo'', trabalhos que conferem credibilidade a um diretor - ainda que razões ideológicas, de resto mesquinhas, tenham sido invocadas para diminuí-lo. ''Apocalypto'' - título tão impreciso quanto sugestivo, a meio caminho entre o bíblico e o ancestral - é acima de tudo filme de ação trepidante, de assombrosa força visual e ritmo eletrizante. A trama aproveita todas as possibilidades que oferece uma cultura tão misteriosa como a dos Maias, sobre a qual tanto se ignora, e supera um desafio que outros filmes não souberam afrontrar, como o falido ''Rapa Nui'', sobre os povos que habitaram a Ilha da Páscoa mais ou menos no mesmo período.
''Apocalypto'' não é um filme sobre a cultura Maia enxertado com cenas de muita ação apenas para deixá-lo menos árido. ''Apocalypto'' é um filme de muita ação que utiliza a cultura Maia para deixá-lo com jeito mais inteligente e sofisticado. E isto não é crítica a Gibson, mas uma observação - a idéia até que é bem executada - que pode ocorrer ao espectador mais atento durante as duas horas e meia de projeção, que bem poderiam ser apenas duas. Não se pode garantir o rigor histórico do roteiro e da direção artística, mas a ilusão - matéria-prima que de resto o cinema sempre trabalhou como nenhuma outra arte - de que estamos vivenciando o dia-a-dia do Império Maia é perfeita.
Há abundância de sangue em ''Apocalypto'', é certo, mas nada que supere a quantidade daquele frequentemente visto em bobagens do terror em trânsito frequente nas salas. O grau de brutalidade e violência faz parte da visão hiper-realista de Gibson, uma visão não idealizada dos paradoxos de uma cultura simultaneamente tão avançada e tão bárbara, cujas consideráveis conquistas científicas, sociais e artísticas estavam aparentemente apoiadas sobre uma base de sofrimento e superstição - isto não parece tão próximo e tão familiar?

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