A um mega-lançamento desta magnitude galáctica deveria obrigatoriamente corresponder uma mega-enquete à saída de todas as salas, recolhendo à quente a primeira impressão dos espectadores. E o resultado, me atrevo a antecipar tranquilamente, não carrega apenas um sentimento de decepção, mas também de lástima diante de tanto desperdício. Pois a menos que você esteja mergulhado de cabeça nesta sub-cultura pós Matrix, com seus livros, vídeo-games, websites animados ou interativos, ou ainda seja um daqueles que acredita que os irmãos Wachowskis representam a súmula de todo o pensamento filosófico e místico, Ocidente e Oriente, ''tout compris'', com certeza vai partilhar desta sensação sempre incômoda que é estar diante do gato quando a oferta era lebre.
Como ato final da trilogia iniciada em 1999 com o intrigante mas nunca brilhante ''The Matrix'', este ''The Matrix Revolutions'', que desde anteontem tomou de assalto mais de 400 salas no país (veja a programação de cinema na página 2), é um objeto cinematográfico disforme, essencialmente um barulhento filme de batalhas encadernado por um incompreensível início e um quase risível final. Inconsequente, repetitivo, desnecessário e desgastante, até mesmo como entretenimento puro e simples. Ou como matinê de auto-ajuda espiritual, vertente Paulo Coelho.
Onde estávamos, desde a estréia de ''Reloaded''? Ah, sim. O parabólico e messiânico Neo (Keanu Reeves), ou pelo menos o corpo dele está agora numa espécie de coma, condição adquirida ao final de ''Matrix Reloaded''. Sua mente estacionou numa variante de limbo. Sua namorada, Trinity (Carrie-Anne Moss), e seu mentor, Morpheus (Laurence Fishburn), tentam encontrar uma solução para trazê-lo de volta. A complicação mais recente focalizada por ''Revolutions'' é que o agente Smith (Hugo Weaving) - e quem mais? -, aquele programa rebelde que se auto-clonava em ''Reloaded'', agora ameaça tomar conta tanto do cyberworld de Matrix quanto do mundo real. Enquanto isso se desenha em ritmo de cybertédio, pecado mortal para uma promessa de ação somente em parte cumprida no terço final do filme, prosseguem os preparativos do ataque das máquinas a Zion.
''Conseguirá Neo acordar a tempo?'' ''A humanidade sobreviverá?'' ''Por que tanto sal na pipoca?'' ''E esta hora, meu Deus, que não passa nunca?'' Estas e outras questões aflitivas e correlatas podem ser propostas pelo espectador durante os 40 e tantos minutos iniciais recheados de conversas divagatórias e filosofices anestesiantes. No decorrer da projeção, vai ficando irritantemente claro que houve demasiada tolerância para com ''Reloaded'', talvez porque se tratasse da metade de um filme. E agora, após ''Revolutions'', confirma-se o que sempre foi mais ou menos evidente na trilogia: os manos Wachowski foram dando um chega pra lá no elemento humano, escamoteado em escala crescente pelos grandiloquentes mas incongruentes efeitos visuais. No encerramento, o paradoxo supremo: música apocalíptica e imagens finais tentam imprimir uma grandiosidade épica que o filme decididamente não suporta.
O que resta de positivo e aproveitável neste ''Matrix Revolutions''? Não há, a não ser desmascarar definitivamente esta mística absurda que envolveu os três títulos, beneficiada pela novidade proposta pelo primeiro - não estariam estes títulos trocados? ''Revolutions'' seria a abertura, este agora seria no máximo ôMatrix Redundant"... Além do já surrado tatibitati pseudo-filosófico, procura-se até com aflição - e não se encontra - aquilo que é sempre essencial à mínima sobrevivência de uma sólida lógica dramatúrgica: história e personagens, consistentes obviamente. Em substituição, mais de uma hora da mais gráfica, explosiva e sonolenta troca de tiro já vista nos mais de 400 minutos da trilogia. E um anti-clímax, que não quer calar: tudo o que se encenou antes, todas as pirotecnias, toda a ensaística espiritual, tudo enfim concentrado num reducionista duelo entre Neo e Smith à moda ''Blade Runner?'' Convenhamos, é indigência a toda prova.

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