Narrativa, ou a arte de bem contar uma história na tela, nunca foi a melhor praia do diretor Tim Burton. Um excêntrico estilista na forma, mas limitado e carente quanto ao conteúdo, seus filmes, influenciados pelas extravagâncias góticas aqui cabe a redundância de cartunistas como Charles Adams e Edward Gorey com frequência trataram argumento e personagens como elementos secundários. Isto é particularmente evidente em seus dois últimos trabalhos: o visualmente deslumbrante, mas monótono ''A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça'' (1999) e o desastroso remake de ''O Planeta dos Macacos'' (2001). Com este empenhado ''Peixe Grande'', Burton consegue um balanço satisfatório entre os elementos fantásticos da trama e a tocante história de um pai no leito de morte que busca a reconciliação com o filho ressentido e arredio. Fábula afetuosa temperada com bom humor e charme, ''Peixe Grande'' é o melhor Tim Burton desde ''Ed Wood'', realizado em 1994.
Edward Bloom (Albert Finney) sempre foi um desmedido contador de histórias seriam grandes mentiras? Viajante incansável, foi acumulando experiências pela vida, fatos (ou invencionices?) que recria com ricas minúcias em oralidade fascinante. Aventuras novelescas e personagens extraordinários. Contos aos quais aumenta um ponto em cada nova versão. Bloom prefere os rasgos de fantasia a uma vida real rasa e boba, e lá consigo mesmo deve intuir que na ficção encontra não apenas mais beleza, mas também mais verdade.
Graças a esta notável habilidade, ele é o centro das atenções e homenagens na pequena cidade onde vive, no Alabama. Todos o admiram. Ou quase: seu filho único, Will (Billy Crudup), em quem tantas histórias fantásticas deixaram um grande vazio, uma lacuna de afetos na memória familiar (''em suas histórias sou apenas uma nota de pé de página'', reclama ao pai), quer agora e de uma vez por todas separar realidade de ficção.
Este terceiro Edward na obra de Burton, depois de Ed Wood e de Mãos de Tesoura, recebe em seu leito de enfermo a visita de Will, que agora tenta se reaproximar para justamente saber o que existe de verdade na galeria mitológica do pai, este otimista sonhador. Embora próximo da morte, Edward Bloom não perdeu o apetite para tecer invencionices. À medida em que ele relata sua mirabolante história de vida a um cético Will, o espectador acompanha em flashback o jovem Edward (Ewan McGregor) numa série de aventuras que o levam ao redor do mundo. Aos poucos, Will começa a saborear as andanças paternas às voltas com gigantes, bruxas de um olho só, homens-lobo, cantoras siamesas e fenômenos de circo. E vai descobrindo que tudo afinal pode não ser tão fantástico quanto parecia.
Baseado em novela de Daniel Wallace, ''Big Fish'' não é um grande filme, longe disso. Há um desequilíbrio na estrutura do relato, dividido em dois tempos. No atual, o retrato é realista, e ao final se debruça sem muita cerimônia em direção ao melodrama que debilita a narrativa. No segundo, Burton convida à fantasia, a entrar num colorido livro de fábulas. É neste departamento que ele está à vontade, remetendo a ação ora a Spielberg, ora a Fellini. Uma vez, porém, descontado este desvio de curso, sobram partes deliciosas deste ''Peixe Grande''. Como a luz prodigiosa do diretor de fotografia Philippe Rousselot; ou o vestuário criado por Colleen Atwood, além, é claro, do desenho de produção assinado por Dennis Gassner e da trilha musical de Danny Elfman, nominada ao Oscar da categoria. No elenco, os homens dão as cartas, e entre eles Ewan McGregor, só uns poucos furos acima de Finney.
Por fim, não há como descartar a semelhança entre o diretor Tim Burton e seu personagem Edward Bloom. O primeiro, um deslocado no universo hollywoodiano; o outro, um mitômano à procura do maravilhoso que a vida pode dar em tão pouco tempo. Criadores de sonhos, ambos. Juntos, atrás dos peixes grandes, enormes, cada vez maiores. O cinema precisa deles.

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