CINEMA/ESTRÉIA - Histórias de encontros e desencontros
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de maio de 2007
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Assim na matriz como nas filiais. Sem entrar em muitos detalhes numéricos, a terceira história de Spiderman que invadiu o mercado mundial no ultimo fim de semana está hoje em 4.252 salas somente em território dos EUA (fonte: www.boxofficemojo.com), outro recorde entre os vários que o lançamento vem obtendo. Aqui, como em todo o resto da América Latina, o espaço também aumentou, e onde havia duas agora são três salas a exibir o filme, e assim por diante, em progressão aritmética aqui, geométrica acolá.
Via de conseqüência, sobra quase nenhum espaço para outros lançamentos, até mesmo para os próprios concorrentes hollywoodianos, na fila de espera como os outros eternos sacrificados na divisão do bolo feita por distribuidores e exibidores, esta dobradinha de predadores que impõe o que quer e quando quer. Resta o consolo do circuito alternativo que, se não chega a ser uma teia de proporções aracnídeas, pelo menos cumpre sua parte no drama como fator de resistência e diversidade cultural.
Segundo filme do Ciclo Wong Kar Wai, este mês em exibição no Cine Com-Tour/UEL (veja a programação de cinema na página 2), ôAmores Expressos" foi o
quarto longa-metragem dirigido pelo cineasta de Hong Kong, em 1994. O filme foi pensado, rodado, montado e lançado em três meses, enquanto eram resolvidos os complicados problemas de pós produção de Cinzas do Tempo, título posterior de WKW. No argumento, duas histórias de amor e desamor, de encontros e desencontros. Uma, a do policial 223 com uma misteriosa mulher, traficante de drogas; outra, do policial 663 com uma garçonete de um local de fast-food. Nada mais. E no entanto...
O título original, Chunking Express, vem das chamadas Mansões Chunking, local onde imigrantes ilegais sobrevivem, onde também se trafica drogas e se faz um pouco de tudo, e de Midnight Express, restaurante fast-food de comida indiana que existe em Hong Kong. A trama, sintetizada e simplificada, está de acordo com outros filmes do diretor, onde sempre existe uma série de personagens arquetípicos.
Em primeiro lugar, o homem desolado (desta vez em dose dupla) que por alguma razão sente-se abatido mas luta para sair desta situação lamentável. De outro lado, há o personagem que foge de um passado obscuro e que vem se tornando mais forte ao longo do tempo, tentando com certo êxito escapar de suas recordações pode-se dizer que este é aquele anterior, mas com certo grau de evolução existencial. E finalmente há o personagem mais simples, até ingênuo, que aparentemente tem uma vida normal até que um dia, por trapaças do destino, se vê diante de uma situação da qual pode sair com decência ou afundar de vez, colocando-se no lugar daquele primeiro.
WKW volta a trabalhar com os procedimentos de sempre. Um grupo de magníficos atores da casa que sabem, até pela enorme afinidade, interpretar estes personagens de acordo com as fixações do diretor. Também são funcionalmente recorrentes o desenho de produção, a fotografia (do parceiro australiano Christopher Doyle) de cores e movimentos de câmera fortes mas também lentos, a trilha musical com hits da musica pop de ontem e hoje, a ausência de um roteiro pronto e acabado que, no entanto, se vai construindo durante as filmagens. Este repertório que é marca registrada do cineasta reveste Amores Expressos de uma beleza muito pouco comum, e por isso não exatamente fácil como definição.
WKW é o poeta dos amores humanos, dos amores mais reais e inclusive mais compreensíveis porque livres de qualquer esquematismo, anos-luz do recorte hollywoodiano. Quem conhece a fase 2000 do diretor Amor à Flor da Pele, 2046 e o episódio A Mão do longa Eros e não viu os anos 1990 de WKW, mas logicamente foi envolvido por esta sensibilidade não deve se privar de Amores Expressos e Felizes Juntos, título inédito que encerra o ciclo depois da reprise de 2046.


