E não é que um cineasta pode mesmo fazer a diferença? Este Harry Potter - ‘‘O Prisioneiro de Azkaban’’, terceiro livro da série e o preferido de Steven Spielberg - que está entrando em milhares de salas mundo afora a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2), possui o toque de magia necessária para desgarrar-se favoravelmente dos anteriores: é mais curto, mais adulto, bem mais dinâmico. De fato, mais do que um passe de mágica, ele abandona o mundo da infância e suas coisas pediátricas. Melhor: a história se aventura, se solta e tira vantagem dos tormentos da adolescência. Fragmentos de realidade permitem então ao espectador descobrir um Harry Potter mais atual.
  Desde o começo, o diretor Alfonso ‘‘Y Tu Mamá También’’ Cuarón dá o tom. No quarto, à noite, Harry (Daniel Radcliff) brinca com sua varinha, solitário. Ele controla mal suas reações. Menos heróico, mais falível, o rapaz nada tem de perfeito. E além do mais, a vedete aqui é Hermione (Emma Watson), cheia de recursos e espertezas. E de novo, claro, está Ron (Rupert Grint), garoto que parece hesitar em crescer, entre covardia e fidelidade. O trio está mais verossímil psicologicamente, e agora fashion teen, de acordo com a modernidade. Seus corpos ganharam formas, e suas habilidades de magia estão mais submetidas às respectivas personalidades. Custa reconhecer Harry debaixo de chuva, jogando quadribol com a camisa número sete (homenagem a Beckham?).
  Neste terceiro volume de imagens, como sempre espezinhado e humilhado pelos tios, o mago adolescente foge de casa e chega novamente a Hogwarts, onde já estão Hermione e Ron em plena puberdade. O dilema agora é enfrentar um tal de Sirius Black (Gary Oldman), um fugitivo da prisão de Azkaban, lugar onde são confinados magos criminosos. Black, segundo afirma o tenebroso boato, teria participado da morte dos pais de Harry, aquela velha história, e agora estaria no encalço do inimigo número daquele inimigo de quem não se pronuncia o nome, também conhecido por Lord Voldemort.
  Na escola de bruxaria há os velhos e caros personagens de sempre, como o abominável Draco Malfoy (Tom Felton), o sempre imprevisível professor Snape (Alan Rickman), o decano professor Dumbledore (Sir Michael Gambon, substituindo bem o falecido Richard Harris), o hirsuto bonachão e agora também professor Hagrid (Robbie Coltrane), a professora e falsa megera McGonagall (Maggie Smith). Mas há um novo e bem vindo reforço de casting, além de Oldman. Virtudes estão distribuídas pelo aporte de Timothy Spall, ator fetiche de Mike Leigh, pela veterana Julie Christie, pelo esperto David Thewlis e pela aristocrática Emma Thompson no delicioso papel da mestra Sibyll Trelawney, PHD em adivinhações. E há novas criaturas, como o hipogrifo, quadrúpede voador com papel importante na trama; ou os dementadores, sugadores de almas e guardiões de Azkaban, seres híbridos entre os cavaleiros de Bergman de ‘‘O Sétimo Selo"’’ e os encapuzados mensageiros da morte de Sauron na trilogia dos Anéis. Uma ótima metáfora da depressão que ronda Harry Potter.
  Entre as diversas vantagens contabilizadas através da troca de diretores, sai de cena o clima opressivo e formal imposto por Chris Columbus (agora na retaguarda como co-produtor) em favor de temas como crescimento, busca de identidade, relação com os amigos, a carência de uma família na retaguarda e, na falta dela, a conseqüente busca interior. O roteiro de Steven Gloves também abrange temas sociais como injustiça e racismo, coisas que de resto afetam a todos. É sempre inteligente quando não divide a galeria de personagens em totalmente bons ou inteiramente ruins. E reserva um final inesperado com um toque de espontaneidade. Não há como negar que em vários aspectos a saga Harry Potter é um fenômeno cinematográfico equiparável e comparável à trilogia do Senhor dos Anéis.
  Pode ser que os fanáticos da série se desorientem um pouco com as mudanças, mas não há nenhuma dúvida de que o mexicano Alfonso Cuarón, também diretor do feliz conto de fadas ‘‘A Princesinha’’, soube aplicar à história, em vez de terror desatado, uma dose de lógica inteligência. Resta esperar e torcer pelo opus quatro, já em linha de produção sob a batuta de Mike Newell (‘‘Quatro Casamentos e um Funeral’’ e o recente ‘‘O Sorriso de Mona Lisa’’).

mockup