CINEMA/ESTRÉIA - Férias com super-heróis
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 07 de julho de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Depois de um primeiro semestre quase traumático, apenas com modestos resultados financeiros (a salvação foi ''A Vingança dos Sith'', em fins de maio), o box-office nos Estados Unidos e por extensão nas filiais de todo o mundo parece estar se recuperando com os lançamentos recentes de ''Batman Begins'', ''Mr. and Mrs. Smith'' e ''Guerra dos Mundos''. A estréia mundial de ''Quarteto Fantástico'' deve melhorar consideravelmente a performance das bilheterias, esquentando ainda mais o verão americano e colorindo o inverno do hemisfério sul, Brasil incluído (veja a programação de cinema na página 2).
Um pequeno prólogo. Em 1961, a primeira história do Quarteto Fantástico colocou a grife Marvel no mapa. Antes de Homem-Aranha, antes do Incrível Hulk, antes de X-Men já havia o Quarteto Fantástico. E quem são os super-heróis da hora? Reed Richards é Mr. Fantastic (Ioan Guffrudd); Sue Storm (Jéssica Alba) é a namorada dela, capaz de criar campos de força e de se tornar invisível; Johnny Storm (Chris Evans) é irmão de Sue e pode aumentar o calor do corpo, tornando-se uma tocha humana; e Bem Grimm (Michael Chiklis) tem o corpo transformado em pedra, com consequente super-força. E como ficaram assim? Durante uma viagem espacial, o quarteto ficou exposto à radiação, e seus metabolismos foram geneticamente alterados. E o vilão do argumento, quem seria? É o perverso Dr. Doom, que também estava na tal expedição e também ganhou super-poderes. Que no entanto subiram à cabeça: mascarado e envolto em mantos, ele agora planeja dominar o mundo.
As adaptações de X-Men, Homem-Aranha e Batman (os dois primeiros e o quinto em exibição) provaram que os filmes com super-heróis podiam ser bons. É uma pena que este ''Fantastic Four'', embora muito movimentado, seja um passo atrás nesta recente e interessante relação entre cinema e quadrinhos. Sem dúvida, há o que apreciar nesta aventura dos quatros fantásticos, mas há também decepções. A razão porque X-Men, Homem Aranha e Batman Begins foram bem-sucedidos e funcionam como expressiva extensão dos respectivos comics seminais é que os estúdios trataram os super-heróis com o respeito que mereciam, antes de mais nada contratando diretores com Bryan Singer, Sam Raimi e Christopher Nolar, e também escalando bons atores para os papeis-ícones.
Parece no mínimo estranho que a Fox, justamente o estúdio responsável por X-Men e Homem Aranha, tenha se esquecido desse cuidado e dispensado diretores mais visionários, escalando no lugar um Tim Story qualquer, cujo principal atrativo curricular é a assinatura de duas comédias irrisórias, aquele ''Táxi'' que Giselle Bundchen deve querer enterrar e ''Barbershop'', filmes que estão longe de ser credenciais confiáveis.
Assim, ''Quarteto Fantástico'' está longe de ser um filme com o charme de um X-Men e deste novo e ótimo ''Batman Begins''. Os melhores momentos do filme são aqueles totalmente gerados por computador, por exemplo, tomadas da cidade e muitos zooms. E isso graças à equipe que manipula os efeitos, e não ao diretor. Quanto ao elenco que encarna os super-heróis, nenhum destaque, nenhum deslumbramento, nada para os anais da galeria que os fãs tanto prezam. O Johnny Storm de Chris Evans parece de longe, enquanto os demais vão se ajeitando em seus poderes na medida das possibilidades oferecidas por uma direção inexpressiva e muitas vezes completamente à deriva. Escapa com alguma vida inteligente o vilão Dr. Doom, por conta do ator Julian McMahon. Alguém poderia perguntar: mas super-heróis são ''dirigíveis''? Já não bastariam as peripécias, os corre-corre bem orquestrados e que tais? Basta como resposta a lembrança das dúvidas existenciais do Spiderman/Tobey Maguire, ou a experiência com o medo e a culpa vivida agora por Batman/Christian Bale, ou ainda as recordações amargas esmagando Volverine/Hugh Jackman.
A falta ainda de um roteiro decente até certo ponto minimiza, mas não isenta, a fragilidade do diretor Tim Story. E pensar que cineastas visionários como Steven Soderbergh e Peyton Reed chegaram a ser sondados para assinar o trabalho, sem que se saiba muito bem porque não foram contratados.


