Cinema/Estréia - Exterminador apenas na tela
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 31 de julho de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 
Até dois dias ele era o virtual candidato republicano a ''governador do futuro'', seção Califórnia. A performance foi levada com profissionalismo e mantida mais ou menos a sério durante os últimos três meses em entrevista a Folha, em maio, em Cannes, o ator foi bem convincente quanto às suas ambições eleitorais. O marketing ''fake'' que direcionou Arnold Schwarzenegger rumo à convenção do partido de Bush Jr. cumpriu com precisão a meta proposta e acabou acertando o alvo em cheio. O filme vem fazendo excelente carreira no box office mundial, e o ator já recuperou um bom percentual de sua popularidade, tão danificada nos últimos tempos quanto o visual de seu cyborg guarda-costas depois de uma sessão de pancadaria high tech. Satisfeito com o resultado de seu faz-de-conta, anteontem Schwarzie declinou da candidatura. Ainda bem, já que mesmo de brincadeira a idéia troglodita de colocá-lo no comando de um dos mais importantes estados norte-americanos oferecia um certo clima de mau presságio, um arrepio premonitório.
Onde ele se sai bem de fato é literalmente na pele do robozão fisioculturado, agora de volta em ''O Exterminador do Futuro 3 A Rebelião das Máquinas'', em exibição em todo o país a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 2). Em meio ao atual cenário de imagens de ação congestionadas por argumentos complicados e até beirando a incompreensão, e diante de fenômenos ''culturais'' como ''Matrix'' que se referenciam até não poder, ''Terminator 3 Rise of the Machines'' representa uma simpática e eficiente retomada da ''cesta básica'' desta vertente do gênero. Estamos diante de um primário exemplar da galeria ''chase movie'', isto é, filme de perseguição, um filme enorme em seus barulhentos US$ 200 milhões mas com personalidade de filme B, bem abastecido por corridas, pancadaria e explosões. Linear enquanto trama e flexível o suficiente para acrescentar fermento à mitologia da série.
Anote o guia básico para abordar o filme. Duas máquinas do futuro voltam ao presente para se intrometer novamente na vida de John Connor (Nick Stahl), um hesitante salvador da humanidade agora na faixa dos 20 e vivendo sem eira e sem documento para continuar sua luta contra a robótica desenfreada que de novo ameaça o gênero humano no último episódio, há dez anos, o tal Dia do Julgamento foi adiado. Cada uma das engenhocas foi programada para uma missão: enquanto a ultra-sofisticada, imperturbável, bela e mortífera T-X (Kristanna Loken) deve eliminar a Connor e seus aliados, Terminator (Schwarzenegger) deve protegê-lo a qualquer custo.
Um fator que desequilibra a favor do filme é o bom humor que volta e meia dá o ar da graça, com Schwarzenegger se auto-parodiando e ao organismo cibernético que interpreta. E a troca daquele James Cameron mais intenso e criativo dos dois primeiros filmes por um Jonathan Mostow de uma escola mais segundo a cartilha não chega a comprometer o resultado final. Assim, mesmo sem revolucionar a série como sempre com final comportando nova sequela , ''O Exterminador do Futuro 3'' dá conta do desafio que era atualizar uma saga bem nascida há 20 anos e bem retomada há 10. O segredo? Não mexer em robô que está ganhando. Nascido para o papel, é impossível pensar em Terminator, ou Conan, sem contar com o apelo do imenso visual petrificado do ator Arnold Schwarzenegger, este autêntico monstro da caracterização. Bem melhor vê-lo dando bordoada na ficção do que suportar o peso de uma realidade guerreira na tradição de um Nixon, um Reagan ou um Bush, Sr. ou Jr.


