CINEMA/ESTRÉIA - Do jeito que o diabo gosta
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 10 de março de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Era só o que o exibidor precisava para esconjurar de vez a maré de rendas baixas provocada por um inesperado sortimento de títulos mais sérios portanto e naturalmente menos rentáveis que Hollywood (involuntariamente, é bom que se diga) impôs nas últimas semanas ao mercado mundial. Para sacudir o marasmo das bilheterias, chega hoje ao circuito brasileiro o thriller de fantasia-ação-horror ''Constantine'' (veja a programação de cinema na página 2). O personagem-título, ao contrário do que pode parecer ao recém-chegado e sem qualquer informação prévia, não é uma recatada costureirinha de subúrbio modorrento, mas um destemido caça-demônios em urgente cruzada para aliviar esta terra de uma provável epidemia do Mal que se avizinha.
Nesta trama, John Constantine (Keanu Reeves) tem mais de um problema. Não somente lida com seres do inferno, os populares demônios, como também os conhece bem. Ele já esteve ''lá'', e no presente momento sua alma morta-viva está condenada, sem trânsito para o Céu. Ainda pior: o câncer de pulmão que ele carrega não vai ceder, não importa quantos demônios exorcize, quantos mistérios resolva ou quantas almas salve. O Céu não se ganha só por obras, e ele sabe: está condenado. Desde pequeno, inclusive, quando recebeu o ''dom'' de ver demônios e anjos que vivem entre os humanos, e que poucos podem ver.
Ele vive assim entre Céu e Inferno, tossindo e cuspindo sangue. Espécie de bruxo pós moderno, mix de xamã e Padre Karras redivivo, detetive e vigarista vagando por Los Angeles cenário de nome ideal para o confronto entre luz e trevas , utilizando seus conhecimentos e poderes mágicos para combater os asseclas de Satanás. Não exatamente um exorcista por altruísmo, mas porque um dia tentou o suicídio e foi assim automaticamente condenado. Sua segunda chance surge quando uma jovem é assassinada, embora o caso esteja classificado como suicídio. Ela é irmã gêmea de Ângela (Rachel Weisz), uma policial que também tem lá seus poderes.
''Constantine'', realizado com estimados US$ 100 milhões, marca a volta de Keanu Reeves ao território do blockbuster a que pertence ''Matrix'', embora não se possa dizer que o resultado, artístico ou contábil, seja exatamente o mesmo daquela primeira parte, transformada em ícone do cinema neste início de século. O filme é nervosamente dirigido pelo estreante Francis Lawrence, cuja experiência profissional prévia (e óbvia a qualquer olhar medianamente informado) é toda em publicidade e videoclips de Britney Spears e Aerosmith, entre outros, e tem suas origens em 1985 nos quadrinhos de ''John Constantine: Hellblazer'' o título seria este, se já não houvesse o ''Hellraiser'' da série famosa de horror de Clive Baker. O nome ilustre da gênese é Alan Moore, cuja escritura fantástica criou ''comics'' de prestígio como ''Do Inferno'' e ''A Liga dos Homens Extraordinários'', ambos visitados pelo cinema.
Baseado na história ''Dangerous Habits'', o roteiro assinado pelos próprios criadores da HQ, Garth Ennis (texto) e Jamie Delano (desenhos), é um indisciplinado repositório de referências religiosas confusas, volta e meia recorrendo ao humor como forma de mitigar a fome de idéias (da platéia) que só aumenta no decorrer da narrativa. Por toda a estafa que a balburdia proporciona ao espectador, ''Constantine'' não oferece nenhuma atenuante. Para pensar, um quase nada. Supostamente saído de um ponto de vista católico, o filme, na melhor das hipóteses, é teologicamente uma mixórdia, mas sempre muito pueril. ''Constantine'' tem como contrapeso a presença de Rachel Weisz, volta e meia roubando cenas de Reeves, já que a química aqui não existe, e então é um salve-se quem puder no frigir do fogo do inferno ele pode menos, em papel debilmente taciturno, mais para um Neo sem poderes do que para um humano atormentado por seu dom. Há a classe de Tilda Swinton como um andrógino anjo Gabriel.
Há dois pontos curiosos que merecem atenção e, afinal, crédito. Ocasionalmente, ''Constantine'' transmite a incomoda impressão de que há um mundo de sombras atrás do mundo da superfície, este nosso de calçada e meio fio e gente olhando vitrine. Um outro mundo paralelo de anjos e demônios em todos os cantos, invisíveis, influenciando a vida por aqui. Mas isto só é sentido de maneira intermitente, logo sufocado por ação destemperada como parte de um destempero ainda maior.
O outro ponto a destacar é que temos em cena, por mérito dos desenhistas de produção, um inferno plausivelmente horrendo. Durante as reiteradas idas e vindas que o filme proporciona, ele parece muito quente e vermelho, com demônios por todos os lados. Mas o que se nota por baixo disso é um perturbador oceano de humanidade em agonia. E então este purgatório que afinal é o filme parece até uma aprazível solução intermediária...
Uma última observação: se o operador de projeção permitir, uma surpresa estará reservada durante o desfile dos créditos finais. Se as luzes forem acesas antes, façam valer o custo do ingresso. É o mínimo, neste caso.


