CINEMA/ESTRÉIA - Ao mestre do rock, com carinho
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha 2
Quem viu o trailer desconfiou e agora vai ter certeza. A Escola do Rock, em lançamento nacional (veja a programação de cinema nesta página), é pura fórmula Hollywood, uma variante de Um Tira no Jardim de Infância aquela comediota com Schwarzenegger, vocês se lembram. Esta definição, porém, é injusta porque reducionista, e remete o filme à vala comum da ampla diversidade descartável. Aqui, o que faz a diferença é o roteiro muito esperto e hilariante de Mike White e a direção inteligente porque convencional e generosa do versátil Richard Linklater, dois indies de primeira hora. E a atuação histriônica e sanguínea de Jack Black, sempre à beira de um ataque de exagero, espécie de John Belushi que no momento desponta como o comediante capaz de substituir a mesmice em que se meteram Jim Carrey e Eddie Murphy.
Black, memorável desde Alta Fidelidade (do mesmo Linklater) e há pouco visto em O Amor é Cego, interpreta Dewey Finn, um verdadeiro herói da guitarra. Embora com excesso de peso, ele é aquele tipo de músico apaixonado pela própria pose que passa horas diante do espelho admirando as próprias caras, bocas e os longuíssimos, intermináveis solos. Beirando os trinta, vive em seu próprio planeta rock. Mas, além disso, é guitarrista de uma medíocre banda de garagem formada por ele mesmo. No momento, as coisas vão de mal a pior. Seus coleguinhas o convidam a deixar a banda, no limite com suas performances. Além disso, deve vários meses de aluguel ao patético amigo Ned (o roteirista, Mike White), um professor dominado pela noiva tirânica.
Mas um telefonema muda o destino de Finn. Ele se faz passar por Ned e acaba como professor suplente numa escola primária notável pelo rigor acadêmico e pela disciplina rígida. Para seus alunos, nenhum plano deste anti-herói ignorante o nível cultural é mesmo inferior aos dos alunos. Num dia manda todos ao recreio, no outro tira um sesta. Mas quando ouve os garotos tocando na aula de música, Finn resolve bolar um complexo projeto para ensinar, de maneira clandestina, a única coisa que sabe fazer, seu único patrimônio cultural: compor uma banda de rock e afinal competir e vencer um concurso.
Dewey Finn não se apresenta como educador refinado, um iluminista como Robin Williams em Sociedade dos Poetas Mortos ou como Julia Roberts em O Sorriso de Mona Lisa, para ficar com dois reformadores politicamente corretos. Está mais para o Sidney Poitier de Ao Mestre com Carinho. Termina vitorioso porque reconhece suas próprias limitações de resto, o estilo é troglodita e deixa a garotada brilhar. Tem sensibilidade suficiente para deixar os alunos respirar longe das restrições e da competição de um sistema regido por prêmios e castigos. A Escola do Rock, neste sentido, lança um olhar ácido sobre a rigidez, a pressão e a hipocrisia que regulam a maioria dos sistemas educativos contemporâneos.
Uma das boas idéias deste filme providencialmente despretensioso é quase radical: a cultura rock é melhor base educativa do que aquela que hoje conhecemos e utilizamos. Para aqueles personagens na tela e aqueles espectadores na platéia, que algum dia entenderam essa cultura como uma forma de vida código ético, solidário, crítico quanto às restrições sociais e culturais , Dewey Finn aparece como líder espiritual, alguém que acredita que houve um dia algo que incomodou muito o Poder, e isto era o rock and roll; mas então surgiu uma coisa chamada MTV e aí estragaram tudo.
Mas não se espere crítica social óbvia e panfletária. A ênfase está colocada no entretenimento através de uma trama sempre direcionada nas trilhas do humor com freqüência negro. Mas há um sentido de encantamento, uma ternura e uma sensibilidade que surgem sem que se espere, comoventes. Todos, sem exceção, devem gostar de A Escola do Rock, também uma homenagem musical a ícones como Kiss, Cream, The Doors, AC/DC, The Who, The Ramones, Metallica, Led Zepellin, T-Rex, David Bowie, The Velvet Underground.


