Cinema/Estréia - Ao melodrama, com talento e carinho
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de outubro de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Tem filme brasileiro em lançamento na cidade (''Dom''), o que não deve significar qualquer acesso de xenofobia. Vitimada e datada por uma globalizada atualização conceitual, ficou apenas como registro histórico, de forte conotação nacionalista, a frase-emblema do intransigente crítico Paulo Emilio Salles Gomes em desesperada defesa do filme nacional, em sua época fulminando irado que ''o pior filme brasileiro é preferível ao melhor estrangeiro''. Apesar da presença luminosa de Maria Fernanda Candido no elenco, decididamente o filme de Moacir Góes, ''livremente'' reinterpretando o ''Dom Casmurro'' de Machado de Assis, é o menos indicado para uma frente de resistência contra a ocupação plena das salas pelo similar estrangeiro. Ainda mais quando o concorrente americano é tão magnífico quanto ''Longe do Paraíso'', o belo filme que o exibidor local incluiu quase sorrateiramente na programação (confira as estréias de cinema na página 2).
Juliane Moore, esta atriz exuberante que amadurece e emociona a cada novo trabalho, ganhou sem nenhuma contestação a Coppa Volpi ano passado no Festival de Veneza, onde o filme foi apresentado na competição oficial. Este foi o apenas o primeiro da impressionante e justa coleção de 60 prêmios internacionais que ''Far From Heaven'' obteve ao longo desses últimos doze meses. No filme ela é Cathy, dona-de-casa classe média, bonita, elegante e diligente mãe e esposa. Sua existência, feita de invejável aparência, gravita em torno do marido Frank (Dennis Quaid), pai rigoroso e bem-sucedido executivo de vendas, e dos afazeres domésticos em sua casa ampla, idílica, confortável casa em Hartford, Connecticut, fins dos anos 1950.
Uma noite, Frank avisa a ela que vai trabalhar até tarde no escritório. Como sempre, preocupada e solícita, Cathy leva até ele alguma coisa para comer. O marido está onde disse que estaria, mas nos braços de outro homem. Para ela, é o princípio do fim. Em meio à crise conjugal, e buscando alguma espécie de ajuda psiquiátrica para Frank lidar com a homossexualidade, Cathy acaba encontrando compreensão e consolo nas conversas com seu jardineiro negro, Raymond (Dennis Haysbert). Mas este relacionamento, que aos poucos ganha mais e mais intimidade, vai enfrentar a reação hostil da comunidade, feita de boatos e olhares maldosos. Aparecer em público com ''um negro'' pode ser algo muito próximo do suicídio social e da auto-violentação moral, que obriga a personagem a mentir para esconder o novo sentimento e a conviver com uma torrente de emoções confusas que ela não sabe como lidar.
Em curto espaço de tempo, Cathy sente que se encontra muito ''longe do paraíso'' do título, e que sua cômoda vidinha cotidiana, marcada por afazeres banais e encontros ociosos com suas amigas, é na verdade muito mais uma rígida prisão social feita de um sem número de repressões do que a felicidade despreocupada que um dia todos prometeram a ela. Neste sentido, o filme escrito e dirigido por Todd Haynes endereça uma crítica amarga ao sonho americano e ao otimismo generalizado que asfixiou os Estados Unidos naquele período. A história do amor impossível entre Cathy e Raymond é ainda o pretexto ideal para expor temas conexos como machismo, hipocrisia, homofobia, racismo, infidelidade e o conformismo de uma sociedade silenciosa perfilada com a manutenção das aparências.
''Far from Heaven'' está milimetricamente modelado à imagem e semelhança dos melodramas que o mestre de todos, Douglas Sirk, realizou em Hollywood para a Universal nos anos 1950, não como uma cópia subserviente, mas como uma fulgurante homenagem pensada com afetuosa dedicação, elaborada com amorosa precisão, construída com minuciosa paixão de cinéfilo e vinda de um jovem autor como Haynes. O filme combina o look, os temas e subtemas de pelo menos três dos mais iconográficos títulos sirkianos, os clássicos, ''Tudo o que o Céu Permite'' (''All that Heaven Allows'', 1956), ''Palavras ao Vento'' (''Written in the Wind'', 1957) e ''Imitação da Vida'' (''Imitation of Life'', 1959).
Nesses exemplares justificadamente cult, a sensibilidade apurada de Sirk extraiu do grande público, não apenas feminino, lágrimas e paixão. Mas não só: na realidade, foi um dos mais perspicazes críticos sociais e um dos mais rigorosos cultores de imagens em Technicolor daqueles anos 1950. Todd Haynes, é certo, não é Sirk, nem Julianne Moore quer ser Jane Wyman, nem Dennis Quaid pretende ressuscitar Robert Stack, e de resto o jardineiro aqui é negro e não Rock Hudson. Mas ''Longe do Paraíso'' é bom por isso: sem cair na escravidão do mimetismo, o filme não somente reproduz com devoção e fidelidade o espírito e a estética dos melodramas suburbanos, mas promove agora uma espécie de reformulação e atualização daqueles temas que Sirk então não pôde explicitar, pressionado pelos rigores da censura.
Nesta obra que trata da ''imitação da vida'', a interpretação de Juliane Moore, Dennis Quaid e Dannis Haysbert é peça fundamental para a proposta. ''Você acredita que, algum dia, poderemos ver além da superfície das coisas?'', pergunta o jardineiro Raymond a Cathy, que nunca pode estar com ela em lugar público. ''Longe do Paraíso'' trata exatamente disso: do que está na superfície e no que está abaixo dela, daqueles valores reais que estão sempre sufocados. Por isso a estética do filme é tão comprometida e resulta tão importante. A fotografia, o vestuário, a composição dos planos, tudo está a serviço das aparências, da imitação perfeita de uma realidade aparente. Por baixo, o autêntico, o doloroso. O invisível, a olho nu ou ao olho da câmera.


