CINEMA/ESTRÉIA - Amor nos tempos do Viagra
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de março de 2004
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Michael Caine e Do Thin Hai em ''O Americano Tranquilo''; Jack Nicholson e Helen Hunt em ''Melhor é Impossível''; Sean Connery e Catherine Zeta-Jones em ''Armadilha'', e até Woody Allen e suas diversas jovens acompanhantes, para citar casos mais recentes e notórios. De tempos em tempos, observa-se um fenômeno no cinema, precisamente relacionado ao cinema americano. Os atores envelhecem, enquanto as atrizes que contracenam com eles rejuvenescem intercambiáveis de um filme para outro, ''reloadead'', isto é, recarregadas. Assim, temos com frequência romances entre homens já um pouco para lá da curva descendente, e belas mulheres abaixo dos 35, dando a penosa impressão de testemunharmos essas charmosas criaturas abraçando seus pais ou seus avôs. Por outro lado, atrizes com mais de 45 ficam relegadas, ou ao ostracismo ou a papeis de mães compreensivas ou sogras geniosas.
Por isso parece duplamente irônico que Hollywood aborde o tema do romance entre pessoas de idades bem diferentes. As intérpretes talentosas, como já se viu e nunca é demais repetir, chegam à idade em que começam a perder trabalhos que caem no colo fisicamente impecável das bem mais jovens, via de regra com menor talento, mas definitivamente mais atraentes aos olhos das platéias contemporâneas, cada vez mais seduzidas pela industria da superficialidade das aparências.
O problema de ''Alguém Tem que Ceder'', em lançamento no circuito brasileiro (veja a programação de cinema na página 2), é que a diretora Nancy Meyers, embora tocando em tema tão relevante e com tamanha área de abrangência, o faz de tal forma discreta e parcimoniosa que o discurso deixa de ter a necessária eficácia quando radiografa os ''despertares'' emocionais e afetivos de um homem aos sessenta e poucos e uma mulher já avançada nos cinquenta. Falta à diretora, no fim da contas, um pouco mais de empenho autoral feminista, aquele mesmo da personagem Zoe (Frances McDormand).
Ele é Harry (Jack Nicholson), e logo de saída o espectador conhece seu status atual de empresário bem-sucedido, solteirão que não sai com mulheres acima de trinta. A seu lado está a bela garota Marin (Amanda Peet), fascinada por este homem charmoso e experiente. Num fim de semana na casa de praia da moça, eles encontram a mãe dela, Erica (Diane Keaton), dramaturga brilhante afastada de romances desde o divórcio. Como manda a carpintaria mais previsível da comédia, os dois se detestam de imediato, para mais tarde acabarem um nos braços do outro. Mas antes que isso aconteça, e durante um transbordamento de paixão pela garota, Harry é acometido de leve crise cardíaca sem dúvida causada por excesso de Viagra.
Sob as ordens do Dr. Mercer (Keanu Reeves), Harry descansa na casa. E para surpresa da desprevenida Erica, tanto o jovem cardiologista quanto o veterano sedutor se interessam por ela. E quando tudo se consuma entre os mais velhos, duplo estado de choque. Para Harry, porque nunca conheceu biblicamente alguém com mais de meio século de vida. E para Erica, porque mais familiarizada com os calores da menopausa do que com as emoções fortes de uma noite tórrida. Nenhum dos dois, de novo e como já se previa, está preparado para os altos e baixos desta relação inédita para ambos. Para ela, é o momento de concluir que foi prematura a decisão de aposentar-se da vida amorosa; para ele, é mais do que chegada hora de revisar sua concepção de independência. Mais ou menos em cima do bordão ''o amor não tem idade''
O que acaba sustentando o interesse diante de uma certa anemia criativa e de um roteiro lerdo (128 minutos é tempo excessivo) e com algumas fissuras surpreendentes (onde foi parar, por exemplo, um dos pretendentes de Erica, eclipsado arbitrariamente ?) é quem adivinha ? a interação justa, medida, perfeita entre Diane Keaton e Jack Nicholson, inclusive com tudo de overacting que o ator possa oferecer. A atriz, que perdeu o Oscar recente da categoria para Charlize Theron, tem seu melhor papel em muitos anos, bela na curva outonal (aplausos comovidos: sem sinais cirúrgicos), sincera e empenhada como Erica.
E Nicholson. Nicholson na verdade são dois. Um é aquele da imagem pública, uma criança grande atrás de óculos escuros sorrindo como um demônio em dia de folga. O outro é aquele de quem não nos lembramos entre um filme e outro exatamente aquele ator de rara destreza técnica, intérprete sincero e caloroso. Já é tempo de concluir que o primeiro Jack é uma espécie de cover para a sensibilidade do segundo. De qualquer maneira, o Nicholson que está aqui é dos bons, surgindo como um personagem desguarnecido, vulnerável e de guarda aberta por trás de uma aparente segurança.


