E disse Mel Gibson a seus discípulos: ''Vamos recontar a maior história de todos os tempos. Mas agora vamos contá-la como ninguém o fez antes, da maneira mais original, porque a mais realista possível''. Literalmente apegado com sangue, suor e lágrimas às sagradas escrituras, ele cumpriu o prometido e realizou, no mínimo, uma espantosa reconstituição das últimas horas de Jesus Cristo em vida. O resultado, que desde a Quarta-Feira de Cinzas vem lotando mais de 3 mil salas nos Estados Unidos (com estréia mundial já ocorrendo em cascata até a Semana Santa), chega amanhã a cerca de 340 salas do circuito brasileiro, que se escancara para receber este que já é um dos mais rentáveis lançamentos da história do cinema. Mesmo representada por apenas dez por cento da máquina exibidora norte-americana, a resposta nas bilheterias do maior país católico do mundo deve ser impressionante.
De novo superstar em 2004, mas anos-luz distante do estilizado e juvenil protesto hippie-rock de Andew Lloyd-Webber de décadas atrás, Jesus parte para o calvário mais explícito que qualquer outra manifestação artística ousou sugerir, ou quanto mais mostrar. Nada do que já se viu na tela, ou em representações pictóricas, ou em descrições literárias ou em encenações de palco, se iguala a esta brutalidade gráfica, ao crescente, minucioso, quase insuportável aniquilamento da anatomia do Cristo, provocado por dilacerantes instrumentos de tortura aplicados com fúria sanguinária pela repressão. Como se ungido por fúria sagrada, o católico-apostólico-romano Mel Gibson se transformou numa espécie de quinto evangelista, tomando como sustentação para seu roteiro (e de Benedict Fitzgerald) os textos de Mateus, Marcos, João e Lucas. Mas esta - a violência que toma de assalto a platéia logo nas primeiras cenas, não mais a abandonando - é apenas uma das duas frentes da polêmica. A outra é a alegada bandeira anti-semita. Juntas, renderam até o momento, no mínimo, mais um volume de textos, tão caudaloso quanto a própria Bíblia.
Ultraconservador em assuntos religiosos, Gibson nunca escondeu um profundo descontentamento com as decisões que sacudiram e modernizaram a Igreja Católica há cerca de 40 anos, contidas nas deliberações finais do Concílio Vaticano II. Neste documento, o então Papa João XXIII, entre outros assuntos controversos, eximia o povo judeu de qualquer culpa pela de Cristo. Agora, em conclusão apressada, muitos inclusive que ainda nem tinham visto ''A Paixão de Cristo'' ligaram os fatos e praticaram censura a priori, considerando o não-alinhamento de Gibson com os novos ventos católicos como postura anti-semita.
Para o registro: não é um filme anti-semita. Sendo fiel aos evangelhos, demonstra que os sedentos de sangue não foram os fariseus, mas sim os saduceus, a elite judia no primeiro século DC, aqueles setores isolados, mas influentes, que se sentiram ameaçados pelo discurso de Jesus. Há ainda a questão do governador Pontius Pilatos, alguém aparentemente manejável com facilidade. No entanto, politicamente ele representava o poder imperial, e sua atuação teria que ser necessariamente em função desse poder. Se os membros do Sinédrio levaram até ele um judeu potencialmente ameaçador ao Império Romano, então um tanto de prudência, um costume anual (o providencial Barrabás) e uma bacia de água foram suficientes para deixar Roma longe da responsabilidade maior pela condenação do Cristo ao suplício e à morte. E resta sempre a crença, inabalável para o catolicismo e abraçada com fervor fundamentalista por Mel Gibson, de que os pecados da humanidade foram o fardo determinante para o sacrifício de Jesus.
Não morro de amores por Gibson, a quem considero ator pouco acima da linha da mediocridade - o herói meio sádico sempre dividido entre um ataque de nervos, um ataque de riso e uma explosão de violência foi a fórmula que o consagrou, via ''Mad Max'' e ''Máquina Mortífera''. O público que o idolatra como intérprete de ação não deu a mínima para sua estréia como diretor, no sensível ''O Homem Sem Face'', mas lotou as salas para ver o apenas correto ''Coração Valente'', premiado com vários Oscar (inclusive filme e direção). Mas então surge este ''A Paixão de Cristo''. Um banho de sangue. A reconstituição, por duas horas cheias, da cena de um crime bárbaro. Uma visão passional, radical; um filme inspirado por uma fé que, até sólida prova em contrário, parece o grande trunfo de uma bem sucedida tentativa de extirpar as convenções do épico hollywoodiano e atingir dolorosamente o verdadeiro cerne da história. Mesmo que para isto Gibson leve seu público a um estado de plena exaustão.
Deixando a polêmica momentaneamente à parte (sangue & antisemitismo), e dirigindo o foco da análise para o que interessa acima de tudo, o cinema como manifestação artística, o saldo de ''A Paixão de Cristo'' é bastante apreciável. A começar pelo enfoque original, pelo quase ritual de celebração do sacrifício - estaria Gibson propondo uma missa de espíritos e corpos presentes? - e pela reverência às referências textuais do quarteto de evangelistas. O rigor na reconstituição levou Gibson a optar ainda pela utilização do aramaico e do latim mais corriqueiro, as duas línguas mais faladas naquele tempo. O recurso, longe de causar estranheza, soa fascinante no desembaraço não recitativo que se nota nos diálogos.
O elenco é fundamental para as ambições de tornar ''A Paixão de Cristo'' uma reconstituição desglamourizada e despida de romantismo. Deliberadamente, Gibson fugiu de nomes e rostos conhecidos e/ou emblemáticos. Jim Caviezel, o Cristo, seja na mesa da Última Ceia ou açoitado impiedosamente pela dupla de sádicos romanos, é a grande contribuição. Maria, vivida pela romena Maia Morgenstein, vai fundo na obtenção da mulher-mãe que sofre, aquele ser terreno - é dela um das mais belas cenas, um flashback que acentua a dor indescritível da perda do filho. Madalena, uma Monica Belluci pungente. Pilatos, Caifás, Simão Cirineu, Pedro e o Diabo assexuado, ser andrógino, todos com grande correção. A fotografia de Caleb Deschanel (''O Corcel Negro'') evoca belas cores e contrastes da melhor iconografia religiosa (Caravaggio, por encomenda do próprio Mel Gibson).

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